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O talhe da pedra na Pré-História Recente de Portugal: 2. O estado actual da investigação

antónio faustino de carvalho, Universidade do Algarve - Faculdade de Ciências Humanas e Sociais
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Praxis Archaeologica 4 (2009), p. 67-91
Como referido no fecho do primeiro artigo sobre o talhe da pedra durante a Pré-História recente de Portugal, publicada no número anterior desta revista (Carvalho, 2008a), o objectivo deste segundo texto é fornecer uma selecção de estudos de casos que se possam constituir como exemplos do potencial da análise lítica para o conhecimento de algumas realidades que ultrapassam a mera esfera da produção artefactual, naquele longo e complexo período de tempo. Com efeito, o estudo do talhe da pedra tem sido remetido para uma posição secundária perante a análise das produções cerâmicas ou metálicas. E razão é óbvia: há-de reconhecer-se que, sobretudo se se atender ao âmbito e preocupações da arqueologia histórico-cultural que dominou em Portugal até época recente, a pedra lascada fornece indicadores cronológicos e fósseis directores de menor alcance se comparados com as seriações tipológicas permitidas por aquelas classes artefactuais. Por consequência, se se olhar para as publicações de fundo produzidas até quase ao final do século XX, encontrar-se-ão sobretudo listas tipológicas descritivas e ilustrações de produtos acabados. Bons exemplos desta fase da investigação são, entre outros, os trabalhos do casal Leisner sobre as antas de Reguengos de Monsaraz (Leisner e Leisner, 1951) ou de A. Paço sobre Vila Nova de S. Pedro (Paço e Jalhay, 1945). Pode até afirmar-se que mesmo os trabalhos então realizados sobre as indústrias líticas dos concheiros mesolíticos de Muge não fogem a essa tendência, uma vez que não se observam diferenças substantivas entre a revisão geral levada a cabo por Breuil e Zbyszewski (1947) e a última síntese de Roche (1972), apesar de se tratarem de publicações separadas por um quarto de século!

Será com a adopção de uma perspectiva tecnológica — e não apenas tipológica — na análise das indústrias líticas, mudança que ocorre já em plena década de 1990, que se verifica um salto qualitativo muito notório neste domínio. Mesmo assim, deve salientar-se que este salto não é senão uma espécie de “efeito colateral” da mesma mudança de perspectiva teórica introduzida por Zilhão (1997) nos estudos do Paleolítico Superior português, e que resulta da confluência dos pressupostos da arqueologia processual, por um lado, e dos estudos sobre a tecnologia da escola etnográfica francesa, por outro (ver Zilhão, 1997, vol. II, p. 19-31, para o conhecimento do método de análise das indústrias líticas estabelecido pelo autor em finais dessa década).

Na realidade, foi a escavação de um pequeno sítio — o Laranjal de Cabeço das Pias, na Serra d’Aire (Carvalho e Zilhão, 1994) — que levou à primeira análise tecnológica e tipológica aprofundada de um conjunto de pedra lascada neolítico e, logo depois, ao afinamento da metodologia e da terminologia empregues no estudo destas realidades na Tese de Mestrado do signatário (Carvalho, 1997; 1998), inspiradas por trabalhos homólogos realizados na década anterior na região espanhola de Valência (Juan-Cabanilles, 1984) e na Provença francesa (Binder, 1987). As formulações teórico-metodológicas apresentadas e discutidas naquela dissertação seriam rapidamente adoptados por diversos autores — ainda que de forma nem sempre explicitada — para a análise de conjuntos líticos homólogos de outras regiões portuguesas, das Beiras ao Alentejo, o que demonstra a validade da metodologia analítica em questão e os alcances práticos da mesma. Bastará folhear as publicações onde se apresentam os diversos contextos neolíticos que então se começaram a identificar naquelas regiões para se entrever, desde logo por exemplo nas tabelas de classificação dos conjuntos líticos, o respectivo modelo original.

Neste contexto teórico, é importante referir o destaque também atribuído ao talhe da pedra, aproximadamente na mesma época da investigação, tendo em vista o estudo da passagem do Mesolítico para o Neolítico na costa alentejana. É notória, por exemplo na proposta de Soares (1995), a preocupação de entender este fenómeno através das alterações observadas ao nível dos comportamentos tecnológicos e das estratégias de aprovisionamento e circulação de matérias-primas e artefactos, no que se constitui igualmente como uma postura analítica inovadora na época e distinta, em diversos dos seus aspectos específicos, do modelo analítico a que se fez referência acima.

No que respeita às indústrias de pedra lascada do final do Neolítico e do Calcolítico, o primeiro salto qualitativo importante deveu-se também, uma vez mais, a trabalhos decorrentes do estudo do Paleolítico Superior: trata-se da análise comparativa das produções foliáceas solutrenses e calcolíticas conduzida por Zilhão (1994; 1997), que elevou a discussão do talhe da pedra calcolítico ao patamar da organização da social da produção no âmbito e funcionamento das chamadas “sociedades complexas”. Este mesmo tema obteria imediatamente depois um desenvolvimento alargado e muito consistente por parte de Forenbaher (1998; 1999), investigador que produz uma das mais interessantes e originais contribuições para o estudo do Calcolítico português, infelizmente sem continuidade por parte dos investigadores nacionais.

São, porém, ainda muito escassos — ou mesmo inexistentes — outros trabalhos de igual fôlego e alcance produzidos em Portugal tendo unicamente como base de análise conjuntos de pedra lascada neolíticos ou calcolíticos. Sem prejuízo da existência de dissertações com o mesmo âmbito em outras universidades, refira-se a redacção, já terminada ou actualmente em curso, de teses de licenciatura e de mestrado na Universidade do Algarve consignadas a estudos aprofundados de conjuntos de pedra lascada datados daqueles períodos. Podem citar-se duas teses de licenciatura, uma sobre o material votivo do hipogeu de Monte Canelas (Portimão), por Santos (2004), e outra sobre a oficina de talhe neo-calcolítica de Pomar (Alcobaça), por Jesus (2009). Duas teses de mestrado estão actualmente em curso de redacção, uma sobre o espólio dos monumentos funerários 1 e 2 dos Perdigões (Reguengos de Monsaraz), por Mendonça (s.d.), e outra sobre o material exumado nas escavações de A. Paço em Vila Nova de S. Pedro (Azambuja), por Rebelo (s.d.). Estes trabalhos, que buscam abordagens abrangentes para a resolução de parte das muitas questões ainda em aberto nestas temáticas, sendo já todos do presente século, espera-se que augurem o início de um novo ciclo de expansão deste tipo de estudos.

Estudo de caso I: processos de talhe da pedra no Neolítico antigo do Maciço Calcário Estremenho

O Maciço Calcário Estremenho, que tem como relevos principais as serras de Candeeiros e de Aire, soergue-se entre a vertente atlântica e a Bacia Terciária do Tejo, no centro da Estremadura. No interior do maciço não se conhecem importantes jazidas de sílex, pelo que esta rocha adquire um papel de recurso importado, ainda que de distâncias curtas, uma vez que as principais jazidas conhecidas se situam na sua imediata periferia: Ourém, Alcobaça e Rio Maior (Figura 1). Não é portanto surpreendente que o espectro evidenciado pelos conjuntos líticos de toda a Pré-História recente regional indique, de um modo geral, o predomínio do quartzito e do quartzo, rochas abundantes nas cascalheiras fluviais adjacentes (Figura 2). O sílex é dominante apenas durante o Neolítico cardial (é o caso da Gruta do Almonda, Cerradinho do Ginete e Pena d’Água), período durante o qual está aliás representado por um leque muito restrito de variedades. O sílex torna-se depois minoritário na generalidade dos contextos do Neolítico antigo evoluído e médio, processo que ocorre a par de um impressionante aumento da variedade (a nível cromático, grau de opacidade, inclusões e aptidão para o talhe) de tipos presentes nestes contextos. Estas transformações deverão corresponder a significativas alterações nas redes de trocas ou na mobilidade dos grupos humanos na passagem do VI para o V milénio a.C.

Figura 1

Figura 1. Distribuição genérica dos recursos líticos do Maciço Calcário Estremenho e da bacia do Tejo adjacente: círculos - localização aproximada das principais jazidas de sílex; polígono - cascalheiras potenciais de aprovisionamento de quartzito e quartzo. Sítios do Neolítico antigo: 1. Gafanheira; 2. Abrigo da Pena d’Água; 3. Cerradinho do Ginete; 4. Forno do Terreirinho; 5. Laranjal de Cabeço das Pias; 6. Gruta do Almonda; 7. Cabeço de Porto Marinho IIIS.

Figura 2

Figura 2. Matérias-primas usadas no talhe da pedra no Neolítico antigo do Maciço Calcário Estremenho (valores ponderais relativos). GFN: Gafanheira; PDA: Abrigo da Pena d’Água; CRG: Cerradinho do Ginete; FTR: Forno do Terreirinho; LCP: Laranjal de Cabeço das Pias; ALM: Gruta do Almonda; CPM: Cabeço de Porto Marinho IIIS (segundo Carvalho, 2008b, fig. 99, adaptada).

A análise tecnológica proporcionou a reconstituição dos principais processos de produção lítica presentes no Neolítico antigo, os quais foram designados por “método aleatório”, “método bipolar” e “método prismático” (Carvalho, 1998; 2008b). O recurso a estes métodos de talhe por parte dos artesãos neolíticos está no entanto directamente dependente, por um lado, dos referidos condicionalismos impostos pela diferente acessibilidade às matérias-primas e, por outro, da funcionalidade de cada um desses sítios.

Assim, no “método aleatório” incluem-se cadeias operatórias de algum modo diversas — e que só a continuação do estudo e o seu alargamento a colecções mais numerosas poderá mais tarde divisar a possível existência de outros métodos por ora subsumidos nesta categoria geral —, mas que têm em comum o facto de decorrerem sem pré-determinação, resultando daí a designação adoptada. Estas cadeias operatórias resultaram na conformação de núcleos de tipologias muito diversas, mas predominando as peças de tipo chopper, núcleos informes, ou simplesmente nódulos debitados (Figura 3).

Figura 3

Figura 3. Exemplo de material lítico (em sílex e quartzito) obtido através do “método aleatório”, proveniente da camada Ea do Abrigo da Pena d’Água (segundo Carvalho, 2008b, est. 13).

Este método foi exclusivamente aplicado em contextos tecnológicos de produção de lascas, obtidas por percussão directa, as quais não seguem qualquer padrão dimensional e morfológico que possa levar a concluir estar-se na presença de uma produção normalizada. Ao que tudo indica, trata-se de um talhe que ocorre no quadro de estratégias oportunistas ou expeditas. A corroborar esta inferência está o facto de as utensilagens obtidas serem de concepção muito simples e produzidas para uso circunstancial; além disso, embora este método seja aplicado no talhe de qualquer tipo de rocha, tem particular expressão nas rochas de aprovisionamento local, onde é por norma o único método presente.

Aquando do primeiro estudo do Cabeço das Pias, levantou-se a hipótese segundo a qual os núcleos bipolares e as peças esquiroladas teriam funcionado, pelo menos nalguns casos, como núcleos para a obtenção de produtos de talhe característicos (esquírolas, lamelas irregulares, bâtonnets) para eventual utilização como barbelas de utensílios compostos (Carvalho e Zilhão, 1994). Tendo sido ulteriormente possível verificar que esta associação é recorrente noutros contextos do Neolítico antigo da região, pôde concluir-se que se estava perante um processo técnico específico e autónomo, que se designou por “método bipolar”.

Este método consiste, em suma, na debitagem, por percussão directa, de pequenos blocos ou lascas assentes em bigorna, tendo para o efeito sido empregues somente o sílex e o quartzo, dadas as suas aptidões físicas para este modo de talhe. As vantagens são evidentes: por um lado, é aplicável a rochas de difícil talhe segundo os procedimentos clássicos da debitagem laminar (caso do quartzo); por outro, permite explorar ao máximo um pequeno volume de rocha doutra forma não aproveitável. O propósito de obtenção de barbelas segundo este método pode de algum modo enquadrar-se nas mesmas estratégias tecnológicas e económicas que subjazem às cadeias operatórias incluídas no “método aleatório”, razão pela qual ambos os métodos são, aliás, totalmente desconhecidos em contexto funerário.

A produção de lâminas e lamelas pode ocorrer, como se referiu, no quadro do “método bipolar”. Contudo, para a obtenção sistemática e em quantidades significativas de peças mais robustas e de morfologias regulares, recorreu-se quase exclusivamente ao sílex e seguiram-se cadeias operatórias mais complexas que se reuniram sob a designação de “método prismático” por recorrerem exclusivamente à conformação e exploração de núcleos deste tipo (Figura 4). Com efeito, a análise dos materiais resultantes deste processo de talhe mostra que os nódulos eram apenas sumariamente descorticados — por vezes logo nos locais de aprovisionamento, o que resultou em percentagens muito variáveis de lascas corticais nos sítios arqueológicos — e de seguida segmentados em volumes mais reduzidos, usando-se as arestas assim obtidas como arestas-guia para a debitagem subsequente. Não há, portanto, recurso à conformação de cristas. A preparação das plataformas dos núcleos prismáticos, por seu lado, parece não ter envolvido procedimentos mais complexos do que a criação de planos de talhe descorticados, predominando as plataformas lisas e, em segundo plano, as plataformas facetadas. A regularização das cornijas não é visível nos núcleos, mas encontra-se nalgumas lâminas e lamelas. Reorientações do eixo de debitagem são frequentes e, quando aplicadas, visavam por regra a continuação da produção de lâminas ou lamelas, por vezes até ao esgotamento dos núcleos. A tipologia dos talões apresenta grandes oscilações de sítio para sítio, mas as peças facetadas representam sempre o tipo mais frequente (Figura 5). Há também indícios de tratamento térmico, em percentagens raramente superiores a 30% (quer dos núcleos, quer das lâminas e lamelas). Os padrões métricos destas produções atingem picos de frequências nos 8-10 mm, e têm módulos máximos raramente superiores a 18 mm. A quase inexistência de peças intactas impede a obtenção de valores fiáveis para os comprimentos, mas estamos, em suma, perante conjuntos de morfometrias eminentemente lamelares.

Figura 4

Figura 4. Exemplo de material lítico (em sílex) obtido através do “método prismático”, proveniente da Galeria da Cisterna da Gruta do Almonda (segundo Carvalho e Gibaja, 2005, fig. 3).

Figura 5

Figura 5. Talões dos produtos alongados do Neolítico antigo do Maciço Calcário Estremenho. GFN: Gafanheira; PDA: Abrigo da Pena d’Água; FTR: Forno do Terreirinho; LCP: Laranjal de Cabeço das Pias; ALM: Gruta do Almonda; CPM: Cabeço de Porto Marinho IIIS (segundo Carvalho, 2008b, fig. 108, adaptada).

No que respeita às técnicas de debitagem, há uma série de indicadores que apontam para a presença simultânea, nos mesmos conjuntos, do talhe por pressão e por percussão indirecta, seja no quadro de cadeias operatórias independentes, seja em momentos distintos das mesmas sequências de talhe. É difícil, no entanto, isolar rigorosamente as peças debitadas segundo uma ou outra técnica e avaliar o peso relativo de cada uma, uma vez que as características morfológicas de ambos os tipos de produtos tendem a recobrir-se em parte.

Os utensílios retocados mais frequentes — cuja tipologia descritiva se indica no Quadro 1 — são peças de concepção simples, predominando as lâminas e lamelas e, sobretudo, as lascas com retoques marginais, ambos os grupos com percentagens entre os 20 e os 40% do total das utensilagens (Quadro 2). Os restantes grupos tipológicos têm percentagens que só raramente ultrapassam os 10%, como por exemplo os entalhes e denticulados e os micrólitos geométricos. O tipo mais comum de geométrico é o segmento de círculo, sempre com retoque abrupto e, por regra, directo, sendo usualmente obtido através da flexão do suporte sem recurso à “técnica do microburil”.

QUADRO 1
Lista tipológica das utensilagens retocadas do Neolítico antigo do Maciço Calcário Estremenho

Grupo A: Lâminas e lamelas de retoque marginal
1. lâminas de retoque marginal
2. lamelas de retoque marginal
Grupo B: Lascas de retoque marginal
1. lascas de retoque marginal
Grupo C: Entalhes e denticulados sobre lâmina ou lamela
1. lâminas com entalhe
2. lamelas com entalhe
3. lâminas denticuladas
4. lamelas denticuladas
Grupo D: Entalhes e denticulados sobre lasca
1. lascas com entalhe
2. lascas denticuladas
Grupo E: Furadores e brocas
1. furadores sobre lâmina
2. furadores sobre lamela
3. furadores sobre lasca
4. furadores piriformes
5. brocas
Grupo F: Armaduras
1. segmentos de círculo
2. trapézios
3. triângulos
4. lamelas de dorso
5. outros e indeterminados
Grupo G: Truncaturas
1. truncaturas sobre lâmina
2. truncaturas sobre lamela
3. truncaturas sobre lasca
Grupo H: Diversos
1. raspadores
2. raspadeiras
3. compósitos
4. peças esquiroladas
5. outros

 

QUADRO 2
Variabilidade das utensilagens retocadas (todas as litologias) no Neolítico antigo do Maciço Calcário Estremenho, por grupo tipológico

 

Grupo A Grupo B Grupo C Grupo D Grupo E Grupo F Grupo G Grupo H TOTAL

 

N % N % N % N % N % N % N % N % N

Gafanheira

22 21,1 32 30,7 13 12,5 12 11,5 14 13,4 4 3,8 7 6,7 104

Pena d'Água, c. Ea

11 26,1 19 45,2 2 4,7 1 4,7 3 7,1 1 2,3 5 11,9 42

Pena d'Água, c. Eb-topo

2 4,5 20 45,4 6 13,6 3 6,8 9 20,4 4 9,0 44

Pena d'Água, c. Eb-base

13 61,9 1 4,7 2 9,5 1 4,7 1 4,7 2 9,5 1 4,7 21

Cerradinho do Ginete

3 23,0 5 38,4 1 7,6 2 15,3 2 15,3 13

Forno do Terreirinho

38 21,8 72 41,3 4 2,2 21 12,0 2 1,1 17 9,7 6 3,4 14 8,0 174

Cabeço das Pias

14 8,4 38 23,0 44 26,6 15 9,0 12 7,2 2 1,2 40 24,2 165

Gruta do Almonda

16 61,5 3 11,5 1 3,8 3 11,5 1 3,8 2 7,6 26

Cabeço de Porto Marinho

2 3,7 25 47,1 6 11,3 1 1,8 3 5,6 3 5,6 13 2,4 53

Após a sua formulação, este modelo tecnológico e tipológico de produção de pedra lascada em contexto neolítico antigo foi retomado em duas vertentes distintas. Primeiramente, foi aplicado na comparação daquelas indústrias com as suas homólogas do Mesolítico final do Baixo Tejo — isto é, dos concheiros de Muge — na busca de semelhanças e diferenças culturalmente significativas para daí se extraírem conclusões acerca do próprio processo de emergência do Neolítico (ver, entre outros, Carvalho, 2008b). Por outro lado, a interpretação funcional subjacente à classificação tipológica foi aferida através da realização de projectos de análise traceológica de diversas categorias formais de utensílios (sobretudo micrólitos geométricos e utensílios de suporte alongado) e de peças brutas. Embora os artefactos analisados se encontrem afectados por alterações físicas pós-deposicionais, foi possível concluir, entre outros aspectos, pela multifuncionalidade dos suportes alongados e pela utilização dos geométricos de modo exclusivo enquanto pontas de projéctil (Gibaja et al., 2002; Carvalho e Gibaja, 2005). Um dos vectores de análise no âmbito da traceologia foi também a sua aplicação a artefactos fabricados em quartzito, rocha predominante em diversos dos contextos arqueológicos e integrante do “método aleatório”. Os resultados obtidos neste particular, ilustrados pela Figura 6, indicam que as actividades em que se empregaram estes artefactos se relacionavam com o fabrico e/ou transformação de objectos em madeira ou pele (Gibaja e Carvalho, 2005).

Figura 6

Figura 6. Artefactos de quartzito com marcas de uso (fotos a 200×). 1. lasca retocada usada para raspar pele; 2. fragmento de lâmina espessa usado no corte de madeira; 3. raspador usada na raspagem de madeira; 4. lasca retocada usada para raspar pele seca; 5. entalhe sobre lasca com marcas de contacto com matéria indeterminada de dureza média; 6. lasca bruta com marcas de contacto com matéria indeterminada de dureza branda ou média. Peças 1 e 2: Forno do Terreirinho; peças 3 e 4: Cabeço das Pias; peças 5 e 6: Abrigo da Pena d’Água (segundo Carvalho e Gibaja, 2005, fig. 9).

Estudo de caso II: as produções laminares neolíticas e a origem das grandes lâminas calcolíticas

O conhecimento do talhe da pedra lascada das fases mais tardias do Neolítico padece ainda das limitações da investigação a que se aludiu no preâmbulo deste texto. A esta dificuldade acresce também a raridade de contextos bem definidos em termos estratigráficos e os seus reduzidos efectivos laminares (por norma inferiores à dezena de exemplares), o que limita análises fundamentadas das produções laminares e das suas transformações no decurso destas fases do Neolítico. Já no que respeita às produções laminares calcolíticas, está apenas assente a noção de um processo de robustecimento dos módulos neste período. Porém, permanece sem resposta fundamentada a questão da origem das grandes lâminas calcolíticas, resposta que entronca naturalmente na discussão mais geral sobre a origem do próprio período. Tratou-se de um processo gradual ou súbito? Ocorreu com base na tradição tecnológica neolítica ou através da introdução de uma tecnologia sem antecedentes locais?

O tratamento desta questão tem recebido recentemente algumas contribuições baseadas no estudo de conjuntos laminares provenientes de contextos neolíticos bem definidos em escavação. Os referidos estudos, que procedem a uma caracterização morfométrica e tecnológica e à identificação dos respectivos processos de talhe, têm-se debruçado sobre as componentes laminares de três necrópoles do Neolítico médio do centro e sul de Portugal:

  • A gruta do Lugar do Canto (Alcanena), que foi recentemente objecto de reanálise da totalidade do seu espólio por parte de Cardoso e Carvalho (2008) e se encontra datada de 3900 cal BC;
  • O Algar do Bom Santo (Alenquer), datado de 3600-3200 cal BC, que foi até ao momento objecto de estudo precisamente pela sua componente lâmino-lamelar em sílex (Carvalho, 2009a); e
  • A Sobreira de Cima (Vidigueira), necrópole formada por cinco hipogeus globalmente datados de cerca de 3200 cal BC, cuja publicação monográfica se encontra em preparação sob a direcção de A. C. Valera, e que revelou igualmente componentes lâmino-lamelares equiparáveis aos das referidas grutas estremenhas (Carvalho, s.d.).

Com efeito, apesar do número relativamente reduzido de peças analisáveis em cada uma das necrópoles — 32 exemplares no Bom Santo, 19 no Lugar do Canto e 18 na Sobreira de Cima —, os resultados obtidos são sistematicamente coincidentes tanto na caracterização geral dos três conjuntos líticos como em alguns aspectos de pormenor. Assim, o gráfico de dispersão representado na Figura 7, que reúne as peças intactas provenientes de todos os contextos, revela, por um lado, dois conjuntos claramente distintos no que respeita às suas dimensões e, por outro, a inexistência de qualquer peça inserível na categoria das “grandes lâminas” de tipo calcolítico. Especificando, os referidos agrupamentos dimensionais parecem poder corresponder a dois processos de talhe laminar (ao que tudo indica) autónomos:

  1. Um, formado por peças com larguras e comprimentos compreendidos entre os 8-20 mm e os 25-100 mm, respectivamente, ou seja, artefactos classificáveis como lamelas e pequenas lâminas (Grupo 1);
  2. Outro, menos numeroso, formado por peças com larguras e comprimentos compreendidos entre os 18-28 mm e os 120-180 mm, respectivamente, ou seja, artefactos classificáveis como lâminas robustas (Grupo 2), ilustradas pelas peças nº.s 1 das Figuras 8 e 9.

Figura 7

Figura 7. Gráfico de dispersão dos produtos alongados inteiros, em função dos seus comprimentos (C) e larguras (L), dos hipogeus da Sobreira de Cima e das grutas-necrópole do Lugar do Canto e do Algar do Bom Santo.

Figura 8

Figura 8. Lâminas e lamelas do Algar do Bom Santo (segundo Carvalho, 2009a, fig. 4, adaptada).

Figura 9

Figura 9. Lâminas e lamelas da Sobreira de Cima (segundo Carvalho, s.d.).

A análise da morfologia geral das peças e das suas regiões proximais revela tendências equiparáveis entre os três sítios, sem diferenças dignas de nota entre os dois grupos para além das respectivas dimensões. Com efeito, são predominantes as peças de secção transversal trapezoidal, com bordos paralelos e nervuras regulares, e perfis longitudinais direitos ou ultrapassados. Os talões apresentam usualmente uma largura inferior à largura máxima atingida pelo corpo da peça respectiva — por exemplo, no caso do Grupo 1 do Algar do Bom Santo, a média de largura dos talões é de 8,8 ± 2,1 mm contra 12,6 ± 2,9 mm de largura máxima —, predominando os talões facetados com bolbos destacados por vezes esquirolados, o que resultou na formação de concavidades nítidas nos contra-bolbos. As faces inferiores destas lâminas apresentam por vezes ondulações identificáveis a olho nu ou ao toque. Estes atributos tecnológicos sugerem fortemente a presença de debitagem por percussão indirecta (ver, entre outros, Binder, 1987, p. 81-82). A única diferença assinalável entre ambos os módulos é um aspecto tecnológico: a presença de tratamento térmico nas peças pertencentes ao Grupo 1, procedimento que não terá sido empregue no caso da produção das lâminas mais robustas integrantes do Grupo 2.

Em suma, é possível concluir que, no estado actual dos conhecimentos e com os dados disponíveis, parece haver no Neolítico médio da Estremadura e do Alentejo dois processos de talhe laminar distintos no que respeita aos módulos obtidos, mas aparentemente recorrendo aos mesmos procedimentos básicos:

  1. A produção, por percussão indirecta e com recurso a tratamento térmico do sílex, de lamelas e lâminas de pequenas dimensões;
  2. A produção de lâminas notoriamente mais robustas, talvez por percussão indirecta, mas sem tratamento térmico.

A aparente ausência de tratamento térmico no Grupo 2 requer, no entanto, investigação específica sobre a mesma, por exemplo de carácter experimental e funcional — a inexistência daquele pré-tratamento confirma-se de facto nestas produções? Se sim, implicaria o uso, afinal, de uma técnica de talhe distinta, ou de uma variante, da que se deduz? Ou a ausência de tratamento térmico respondia a requisitos técnicos relacionados com as funções a que se destinavam estes produtos acabados?

Por outro lado, a existência de dois processos técnicos gémeos visando a obtenção de produtos alongados e com uma circulação geográfica alargada, que abrange uma região interior (o Alentejo) afastada das principais áreas com recursos siliciosos aptos para o seu fabrico (a Estremadura Portuguesa ou a Andaluzia), levanta a questão da eventual especialização da produção lítica já em pleno IV milénio a.C., e por consequência a possibilidade de estarmos perante os primeiros sinais da intensificação económica que caracterizará o período calcolítico.

Estudo de caso III: produção e circulação inter-regional de foliáceos no Neolítico final e Calcolítico

Os trabalhos mais aprofundadamente produzidos sobre o talhe da pedra em contexto calcolítico têm incidido na análise e interpretação do processo de emergência de artesãos especialistas ocorrido no âmbito da crescente complexificação social, iniciada em finais do Neolítico, mas que se parece acentuar no período seguinte (Zilhão, 1994; Carvalho, 1995-96; Forenbaher, 1998; 1999). Nestes estudos tem-se prestado especial atenção a dois tópicos considerados fundamentais:

  • A normalização morfométrica das produções líticas, constituindo os foliáceos o grupo tipológico preferencial em detrimento, por exemplo, das produções laminares;
  • A produção e circulação de lâminas e foliáceos, analisada através da comparação em vários aspectos entre locais de produção (oficinas de talhe) e locais de consumo/utilização (contextos habitacionais e funerários).

Com efeito, e como referido no início deste artigo, deve-se a Forenbaher (1998; 1999) o trabalho mais sistemático e abrangente realizado sobre estas realidades do actual território português. Partindo do estudo de numerosas colecções, principalmente recolhidas em antigos trabalhos arqueológicos, aquele autor considera haver duas linhas de evidência possíveis para abordar as questões enunciadas: a “evidência directa”, ou seja, o estudo de oficinas de talhe onde os artefactos terão sido produzidos, e a “evidência indirecta”, ou seja, a análise dos índices de normalização morfométrica das peças e da sua distribuição inter-regional.

Quanto à primeira, verifica-se que as principais oficinas de talhe conhecidas se situam na região ocidental do País, junto às principais jazidas siliciosas (Figura 10), e aí predominam quantidades massivas de material de debitagem (principalmente resíduos de talhe), peças danificadas ou com acidentes de talhe, percutores usados nessas actividades, e raros utensílios acabados. Um dos sítios que Forenbaher (1998; 1999) considera exemplar neste domínio de análise é Arruda dos Pisões (Rio Maior), escavada por M. Heleno e por si atribuída ao Solutrense mas cuja reanálise e atribuição ao Calcolítico foi depois levada a cabo por Zilhão (1997). De facto, de entre as mais de onze mil peças deste sítio, 77% correspondem a núcleos e material de debitagem, contra 22% de utensílios, em que 20% se classificam como foliáceos em estado de esboço ou fragmentados por acidentes de talhe. Por seu lado, a maior parte do conjunto da debitagem é formada por lascas de redução bifacial, produzidas principalmente nas etapas iniciais da mesma, a par de algumas lascas de adelgaçamento final das peças. Outras classes artefactuais (cerâmica, pedra polida) são raras na Arruda dos Pisões.

Figura 10

Figura 10. Localização das principais jazidas de sílex/oficinas de talhe conhecidas em Portugal (segundo Forenbaher, 1999, fig. 5, adaptada).

A análise das peças bifaciais, realizada em função dos dois estados principais de produção identificados (inicial e final), indica que as suas variáveis métricas apresentam uma distribuição dimensional unimodal na fase inicial de elaboração. Porém, na etapa final distinguem-se três módulos distintos: “um grupo de bifaces muito pequenos e pesados, usualmente com menos de 70 mm de comprimento e 30 mm de largura; um segundo grupo de bifaces largos e alongados, com comprimentos e larguras médias de 90 e 40 mm; e um terceiro grupo de bifaces largos e relativamente delgados, com comprimentos e larguras médias de 80 e 50 mm” (Forenbaher, 1998, p. 60, original inglês). Estes resultados conduzem o autor à conclusão da existência de elevados índices de normalização da produção de bifaces na Arruda dos Pisões, o que apontará portanto para a presença de um pequeno número de artesãos especialistas no talhe destes artefactos.

No que respeita às principais categorias de foliáceos que se encontram nos locais de consumo, foi possível observar que tanto as pontas de seta como as características “foicinhas ovais” terão sido produzidas nesses mesmos locais (embora ainda não se tenham identificado, em escavação, áreas funcionais consignadas a estas actividades de talhe no interior de povoados) e aí utilizadas. As pontas de seta, ao contrário das “foicinhas ovais”, surgem também em contexto funerário e recorre-se muitas vezes a outras litologias para o seu fabrico. Por seu lado, os grandes bifaces — classificados usualmente como “alabardas”, “punhais” e “pontas de dardo” (Figura 11), e que corresponderão aos três tipos dimensionais, acima referidos, reconhecidos na oficina de talhe de Arruda dos Pisões — eram muito provavelmente armas. Porém, de acordo com Forenbaher (1998; 1999), o seu significado simbólico sobrepor-se-ia àquela utilidade prática. No sentido desta conclusão, o autor aponta diversas observações: a sua raridade (conhecem-se cerca de 200 peças deste tipo em Portugal); a aplicação de polimento em cerca de dois terços dos casos, o que implica um maior investimento de tempo e esforço na sua produção; a sua presença predominante em contexto funerário; as suas grandes dimensões, por vezes exageradas tendo em vista a utilização prática que supõem; o facto de a maioria destas peças se apresentar sem sinais de qualquer utilização; e a observação da prática de reparação de peças fragmentadas, reparação que não viabilizaria no entanto a sua reutilização subsequente.

Figura 11

Figura 11. Principais tipos de grandes foliáceos neo-calcolíticos. 1.-3., 7.-8. pontas de dardos; 4. e 9.: alabardas; 5.-6.: punhais (segundo Forenbaher, 1999, fig. 32, adaptada).

A geologia das regiões portuguesas a sul do Douro facilitou a análise da distribuição geográfica dos foliáceos calcolíticos, pois as principais jazidas da única matéria-prima a partir da qual se podem produzir estas peças — o sílex de boa aptidão para o talhe — encontram-se exclusivamente na região estremenha. Aliás, as oficinas de talhe do Neolítico final e do Calcolítico conhecidas até ao momento em Portugal situam-se precisamente nessa região. Assim:

  • As “foicinhas ovais” estão praticamente restritas a contextos habitacionais da Estremadura, onde a matéria-prima é abundante, o que se deverá às suas funções utilitárias (Figura 12);

Figura 12

Figura 12. Distribuição geográfica das “foicinhas ovais”. Círculos negros: contextos residenciais; quadrados brancos: contextos funerários (segundo Forenbaher, 1999, fig. 40, adaptada).

  • Os grandes bifaces (“alabardas”, “punhais” e “pontas de dardo”) apresentam uma distribuição alargada, sobretudo em contexto funerário, que extravasa entre 50 e 100 km os limites da região estremenha, graças à sua carga simbólica relacionável com a legitimação do estatuto do seu possuidor (Figura 13);

Figura 13

Figura 13. Distribuição geográfica dos grandes foliáceos. Círculos negros: contextos residenciais; quadrados brancos: contextos funerários (segundo Forenbaher, 1999, fig. 40, adaptada).

  • As pontas de seta em contextos habitacionais restringem-se sobretudo à Estremadura, repetindo o padrão observado no caso das “foicinhas ovais”; porém, em contexto funerário apresentam a mesma distribuição geográfica alargada visível nos grandes bifaces. Em suma, as pontas de seta têm, no dizer do autor, uma “natureza dual”.

Assim, Forenbaher (1998) conclui que há, no Calcolítico de Portugal, dois níveis de circulação de produtos: um, local, de objectos líticos relacionados com actividades de subsistência quase nunca ultrapassando os 50 km em relação aos locais de produção; outro, supra-local, de longa distância, que se limitava à circulação de objectos de prestígio. A este nível, o autor acrescenta a possibilidade de este tipo de interacção incluir a circulação de rochas duras (xisto, anfibolitos) e cobre provenientes das regiões circundantes da Estremadura. A única área regional sobre a qual o panorama ainda não é claro é o Algarve, que também possuiu jazidas de sílex, e que o autor considera hipoteticamente como tendo recebido importações a partir da Estremadura, ultrapassando portanto os 100 km acima referidos. Porém, é possível que, à semelhança do observado no caso das grandes lâminas (Nocete et al., 2005; Morgado et al., 2008), os foliáceos do Alentejo e Algarve tenham também provido da Andaluzia.

De acordo com o autor destes estudos, este sistema económico dual, de dois níveis de circulação de produtos, é típico da maior parte das sociedades não igualitárias, o que, aliado a outras observações arqueológicas, permite deduzir que é inegável a existência de desigualdades sociais no Ocidente peninsular durante o Neolítico final e o Calcolítico. Porém, Forenbaher (1998; 1999) considera que o patamar de especialização artesanal é bastante modesto — os especialistas deveriam ser relativamente poucos, estariam envolvido na elaboração de um leque muito restrito de produtos e deveriam servir um segmento muito pequeno da sociedade (cuja identificação e caracterização está por fazer) —, pelo que o seu impacto na economia deveria ser diminuto e apenas suficiente para a manutenção do sistema político calcolítico.

Estudo de caso IV: talhe da pedra e metalurgia durante a Idade do Bronze, uma relação a termo certo

Para além das limitações estruturais que, em termos de investigação, condicionam o conhecimento do talhe da pedra durante a Idade do Bronze, há que assinalar também que esta classe artefactual está representada de modo muito desigual nos contextos arqueológicos deste período, o que introduz um factor acrescido de dificuldade no acesso àquele conhecimento. Por exemplo, no que respeita ao Bronze Pleno do centro e sul de Portugal, conhecem-se sítios sem qualquer achado lítico a par de outros com conjuntos muito significativos. As escavações levadas a cabo no sítio do Casal da Torre (Torres Novas) revelaram um conjunto de pedra lascada que se integra na segunda destas situações, o que proporciona uma oportunidade para colmatar as referidas limitações (Carvalho, 2009b).

Como se pode verificar na sua inventariação geral (Quadro 3), o conjunto do Casal da Torre é constituído por sílex, quartzito e quartzo, padrão que repete as características gerais das indústrias neolíticas do Maciço Calcário Estremenho em termos de estratégias de representatividade das matérias-primas (ver Estudo de Caso I). A sua análise tecnológica aponta para que o entendimento dos objectivos do talhe da pedra neste contexto se possa estruturar em torno de três procedimentos principais, que se descreverão de seguida.

QUADRO 3
Inventário geral da indústria de pedra lascada do Casal da Torre

Sílex Quartzito Quartzo TOTAL
Material de debitagem
Lascas corticais 7 15 3 25
Lascas parcialmente corticais 12 20 1 33
Lascas não corticais 34 15 5 54
Núcleos
Prismáticos, para lascas 2 2
Sobre seixo, para lascas 2 2
Material residual
Fragmentos 13 4 4 21
Esquírolas 14 2 5 21
Suportes alongados (a)
Lamelas 9 9
Lâminas 19 19
Utensílios sobre lasca
Lascas retocadas 8 8
Lascas com entalhes 2 1 1 4
Denticulado sobre lasca 2 2
Raspadores sobre lasca 4 4
Utensílios sobre seixo
Percutores sobre seixo talhado 1 10 (b) 11
Percutores e/ou bigornas 6 6
Seixos talhados/fragmentados 1 6 2 9
Manuportes 1 1
TOTAIS 122 86 23 231

(a) Compreende utensílios retocados, peças sem retoque e peças com sinais de uso.

(b) Um dos quais representado apenas pela extremidade lascada.

A abundância de percutores sobre seixo de quartzito, a maior parte dos quais talhados de modo a obter-se um gume biselado de tipo chopper (Figura 14), a par do baixo índice de retoque observado nas lascas desta rocha (Quadro 3), são observações que conduzem à interpretação do material de debitagem de quartzito do Casal da Torre como resultando do afeiçoamento dos seixos e não necessariamente como tendo sido também o objectivo do talhe (por exemplo, para utilização em bruto). A confirmar-se futuramente esta possibilidade, o material em quartzito não poderá ser interpretado ao mesmo título em que o é o sílex (ver adiante), e parece conformar um procedimento de talhe da pedra individualizável que visava a obtenção de utensilagens sobre seixo, portanto de tipo macrolítico. Não se podendo avançar conclusivamente sobre a função destinada a estas utensilagens, pode levantar-se todavia, a título de hipótese, que seriam utilizadas como percutores nas etapas iniciais de fabrico dos objectos metálicos que se encontraram durante as escavações do sítio, isto é, nas etapas de processamento da matéria-prima ainda em bruto. Esta conclusão necessitaria, contudo, de corroboração traceológica.

Figura 14

Figura 14. Núcleos do Casal da Torre. 1. núcleo de tipo chopper sobre seixo de quartzito; 2.-3. núcleos discóides em sílex e quartzito, respectivamente (segundo Carvalho, 2009b, fig. 11).

Por seu lado, em sílex existe um conjunto de material de debitagem composto, no seu conjunto total (isto é, englobando peças em bruto e com retoque), por 63 lascas, das quais 10 foram objecto de transformação por retoque (Quadro 3), o que significa 16% daquele número. A julgar pelas pequenas dimensões gerais destas peças e pelo tipo de retoque predominante (curto semi-abrupto), é possível conceber um processo de talhe expedito — do qual o núcleo da Figura 14 é bom exemplo — que visasse a obtenção de utensílios cortantes para uso circunstancial e sem significativas alterações morfológicas do suporte original, isto é, conformando um outro procedimento autónomo que tinha como objectivo a produção de utensílios sobre lascas de sílex.

Finalmente, no Casal da Torre há uma componente alongada da indústria de pedra lascada que se constitui também como um processo de talhe independente (Figura 15). Como se pode ver no histograma de frequências de larguras representado na Figura 16, os produtos alongados estruturam-se em função de dois módulos principais: um de dimensões reduzidas, com larguras centradas no intervalo dos 10-12 mm (módulo lamelar), a par de outro, mais robusto, com larguras compreendidas entre os 18 e >22 mm (módulo laminar), com o mesmo número de efectivos. Acresce que a esta diferenciação dimensional correspondem também algumas diferenciações tecnológicas. Assim:

  • As peças integrantes do módulo lamelar são sobretudo peças mesiais (1 inteira, 4 proximais, 6 mesiais e 3 distais), de secções predominantemente trapezoidais (n=8; 57%), com tratamento térmico aplicado a cerca de um terço dos exemplares (n=5; 36%), e com um índice de retoque que se pode considerar baixo (n=4; 29%), sendo em todos os casos retoque curto aplicado nos bordos.
  • Entre as lâminas, o predomínio das peças mesiais (1 inteira, 3 proximais, 7 mesiais e 3 distais) e de secções trapezoidais (n=9; 64%) é também notório; no entanto, há distinções muito nítidas, em concreto: a inexistência de tratamento térmico e a presença de retoque ou de sinais de uso nos gumes em todos os exemplares.

Figura 15

Figura 15. Lâminas e lamelas em sílex do Casal da Torre (segundo Carvalho, 2009b, fig. 12).

Figura 16

Figura 16. Frequências relativas de larguras (em milímetros) das lâminas e lamelas do Casal da Torre.

O pequeno número de peças com talão conservado impede a obtenção de conclusões significativas quanto aos mesmos. Do mesmo modo, desconhecem-se os núcleos de onde ambos os módulos terão sido extraídos. Uma hipótese a ter em conta é a da retoma desses núcleos no contexto das cadeias operatórias dirigidas para a produção de lascas. Em alternativa, podem ainda considerar-se duas outras hipóteses no que respeita especificamente às lâminas robustas:

  1. Estas peças poderão ter sido produzidas num contexto de especialização artesanal, ou seja, em oficinas de talhe eventualmente localizadas junto a jazidas de sílex, à semelhança do registado no Calcolítico regional (Zilhão, 1994; Carvalho, 1995-96; Morgado et al., 2008) e, tal como também observado nesse período, terem integrado redes de circulação de objectos no contexto das quais terão sido importadas para o Casal da Torre.
  2. Uma outra alternativa — porventura demasiado arrojada, se se considerar a precariedade dos nossos conhecimentos sobre o contexto geral em que decorre o talhe da pedra durante a Idade do Bronze — é a possibilidade de as lâminas robustas serem reaproveitamentos de material calcolítico recolhido na superfície de sítios desta época, no que se conformaria, a verificar-se no futuro esta hipótese, como uma estratégia expedita de aquisição de utensílios multifuncionais.

A razão para as diferenças assinaladas no início deste apartado sobre os sítios do Bronze Pleno no que respeita à pedra lascada poderá residir em acessos diferenciados a matérias-primas líticas com aptidão para o talhe. Este acesso diferenciado relacionar-se-á com as novas estratégias de ocupação do território emergentes neste período; ou seja, dever-se-á a um fenómeno de natureza socioeconómica: o colapso, pelo menos parcial, das redes de circulação inter-regional de lâminas em sílex e a circunscrição da produção lítica ao âmbito doméstico para auto-consumo — portanto, não especializado — e com base apenas nas litologias mais facilmente acessíveis. Esta hipótese interpretativa vai, portanto, ao encontro da proposta formulada por Senna-Martínez (2007, p. 121) para explicar o contexto social, neste caso, da produção metalúrgica na época, segundo a qual é evidente “[…] o seu cariz eminentemente doméstico, para auto-consumo e sem que se vislumbre em qualquer das áreas peninsulares uma qualquer aproximação a uma circulação de tipo mercantil”.

No prosseguimento da investigação, há portanto que buscar indicadores comparativos da relação funcional entre artefactos metálicos e líticos — um tema insistentemente mencionado mas nunca desenvolvido na investigação arqueológica no nosso País —, uma vez que ao longo da Idade do Bronze estremenho essa relação parece de facto existir e assumir contornos significantes, nomeadamente no que respeita às razões que estarão na base do termo da produção de utensílios em pedra lascada. Com efeito, se no Bronze Pleno da Estremadura ainda ocorre com alguma frequência a prática do talhe da pedra, embora limitada às novas condições de produção acima referidas, é muito sintomático o fenómeno observado no decurso do Bronze Final da região no respeitante aos instrumentos agrícolas. Efectivamente, a divulgação alargada que os artefactos em bronze agora registam parece ter, finalmente, conduzido à cessação da produção lítica, sendo a única excepção constituída pelas foices compósitas, fabricadas com cabo de madeira e elementos cortantes em sílex, que abundam nos casais agrícolas da Baixa Estremadura datados da fase inicial do período. Estes utensílios estão notavelmente representados pelos materiais líticos recuperados na Tapada da Ajuda, em Lisboa (Cardoso, 2004), cujas cadeias operatórias se afiguram, aliás, como um tema de estudo importante a realizar no futuro. Ao que tudo indica, será apenas com o surgimento posterior das foices em bronze de tipo Rocanes, na segunda fase do Bronze Final, que as foices compósitas deixarão de ser produzidas (Cardoso, 2004, p. 187): “[n]a Estremadura, só então se teria procedido à substituição das foices de madeira com elementos denticulados em sílex, os quais, como se viu anteriormente, eram de uso generalizado ainda na etapa inicial do Bronze Final, o que se explica por duas razões principais: a facilidade de obtenção local de sílex; e a dificuldade e, sobretudo, o custo, de obter o cobre e o estanho necessários para a confecção deste tipo de artefactos, obviamente dispendiosos”.

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ZILHÃO, J. (1997) − O Paleolítico Superior da Estremadura Portuguesa. Lisboa: Colibri.

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