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Valorização, rentabilização e difusão como culminar do processo de gestão do Património Arqueológico: o caso do povoado fortificado de Cossourado (Paredes de Coura)
maria de fátima matos da silva, Dep. Ciências da Educação e do Património - Universidade Portucalense Infante D. Henrique
E-mail
carlos alberto machado gouveia da silva, Arqueólogo
Praxis Archaeologica 3 (2008), p. 91-116

1. Localização e acessibilidades

O povoado fortificado de Cossourado situa-se no lugar do Forte da Cidade, freguesia de Cossourado, concelho de Paredes de Coura e distrito de Viana do Castelo.

A sua localização é a seguinte: Coordenadas Planimétricas: GAUSS: X = 158.185; Y = 549.700.

Altitude: 375,71 metros (v.g. Forte da Cidade).

Está cartografado no Mapa dos Serviços Cartográficos do Exército, na escala 1/25.000, folha nº 15 (Paredes de Coura), de 1996, e folha nº 7 (S. Pedro da Torre, Valença), de 1997, e na Carta Geológica de Portugal, na escala 1:50.000, folha 1-C (Caminha), de 1962.

Apesar de o povoado estar implantado no topo de um monte, o acesso não oferece dificuldade. A ligação automóvel pode ser feita pela auto-estrada A3, com saída para Paredes de Coura devidamente sinalizada, e/ou pela estrada nacional 303, virando-se, ao quilómetro seis, em direcção à igreja paroquial de Cossourado. Daqui sobe-se por estradão empedrado até meio do monte e, a partir deste ponto, por caminho de terra batida. Todo o percurso, desde a Estrada Nacional até ao povoado, está sinalizado.

2. As campanhas de escavação arqueológica

O estudo científico da estação teve início em 1993, com a realização da primeira campanha de escavação arqueológica, no âmbito do projecto de investigação Estudo, musealização e divulgação do povoamento proto-histórico e romanização da bacia superior do rio Coura que deu origem à Tese de Doutoramento da primeira signatária com o título O Povoamento Proto-histórico e a Romanização da Bacia Superior do Rio Coura: Estudo, Musealização e Divulgação.

Os trabalhos, efectuados primeiramente sob a forma de uma sondagem, revelaram a existência de construções características da Idade do Ferro, às quais surgiu associado espólio arqueológico diversificado. Confirmadas as previsões iniciais, as investigações continuaram nos anos seguintes (até ao ano de 2001), tendo-se escavado, progressivamente, em pontos distintos do habitat, nomeadamente na plataforma superior (vários sectores), na muralha interna e numa área compreendida entre a primeira e a segunda muralhas.

Os resultados obtidos forneceram, por um lado, elementos científicos significativos para o conhecimento da ocupação do povoado durante a Idade do Ferro. Por outro, sob o ponto de vista patrimonial, têm revelado construções habitacionais perfeitamente invulgares, no contexto da “cultura castreja”, a par de estruturas defensivas de grandes dimensões.

3. O povoado e as estruturas

O povoado, propriamente dito, ocupa o topo e as vertentes de uma grande elevação que se distingue com facilidade em relação à paisagem circundante e abrange uma área de aproximadamente 10 hectares.

Com encostas relativamente abruptas, principalmente a Este, a servirem, já de si, como precioso auxiliar na defesa da comunidade, o povoado assenta a sua área habitacional por excelência no topo do monte, onde uma extensa chã, aplanada de forma intencional, oferece as condições ideais para a construção das habitações e estruturas auxiliares.

Ao centro, um torreão construído com terra e pedra eleva-se como notável posto de vigia, de onde se domina, visualmente, parte das bacias hidrográficas dos rios Coura, a Este e Sul, e Minho, a Norte e Oeste.

Os trabalhos desenvolvidos revelaram a existência de um núcleo habitacional constituído por diversas construções. Circulares, umas, de configuração alongada, outras, apresentam como característica dominante dimensões bastante elevadas, pouco enquadráveis no modelo construtivo dito castrejo.

Tecnicamente, o processo utilizado é bastante rudimentar. As paredes são compostas por pedra granítica disposta de forma irregular, raramente aparelhada e sem qualquer tipo de argamassa a consolidar —são construções em pedra seca ou vã. Uma análise mais atenta permite verificar, no entanto, a existência, neste aspecto particular, de diferenças entre as diversas construções. Enquanto as cabanas circulares apresentam um tipo de construção mais cuidado, com paramento interno e externo, as alongadas denotam uma elaboração mais arcaica, mais tosca. Apesar de a diferenciação funcional dos dois tipos de estruturas não se afigurar muito evidente no registo arqueológico, é provável que as circulares acumulassem funções de habitação e de realização de trabalhos domésticos e artesanais, ao passo que as restantes terão sido utilizadas para a prática de actividades artesanais, para a guarda de instrumentos de trabalho, bens de consumo e animais.

Junto ao torreão, a Sudoeste, uma estrutura de planta ovalada terá desempenhado a função de local de reunião e de encontro comunitário. A existência de um banco de pedra ao longo da face interna da parede pelo menos a essa suposição conduz.

O sistema de cobertura seria, por sua vez, bastante simples e o seu formato variava consoante a configuração das cabanas. As de planta circular teriam uma estrutura cónica e as alongadas uma cobertura de duas águas, arredondada nas paredes de topo, ou apenas de uma água, inclinada. Em qualquer dos casos, porém, sem o auxílio de postes, cuja presença não foi documentada pelo registo arqueológico. Os materiais mais aplicados seriam os troncos de madeira, como estrutura de suporte, e a giesta, como revestimento exterior, tal como apontaram as análises antracológicas efectuadas.

No geral, as paredes das cabanas não seriam muito altas, uma vez que a cobertura, principalmente nas construções de planta circular, proporcionaria o prolongamento do espaço para além dos seus limites superiores.

A exemplo de grande parte dos povoados pertencentes a este período cronológico-cultural, Cossourado possui um forte sistema defensivo que circunda e protege o seu habitat.

Compõem-no, na prática, duas linhas de muralha, que circundam na totalidade a sua zona habitacional, e uma terceira, apenas a Oeste, onde o declive é menos acentuado.

Estruturalmente, as muralhas apresentam um processo construtivo composto por grandes blocos de pedra toscamente aparelhados, nas faces interna e externa, e somente por terra, na parte intermédia. Com pequenas rampas e contrafortes —alguns dos quais com degraus— a servirem de acesso interno, possuem, no geral, uma largura aproximada de quatro metros.

A entrada para o habitat —única confirmada mediante escavação— situa-se a Noroeste e coincide com o caminho actualmente utilizado para o acesso ao topo do povoado.

4. Espólio

Os trabalhos realizados forneceram espólio significativo que permite apontar, com alguma certeza, a prática de diversas actividades, nomeadamente as relacionadas com a construção e manutenção do povoado e do sistema defensivo, com a exploração dos recursos naturais (recolecção, caça, pesca, extracção de pedra, desflorestação e mineração) e com o fabrico de vários objectos e utensílios de uso doméstico (olaria, fiação, confecção de vestuário, trabalho da pedra) e a utilização de objectos de adorno.

5. Valorização do povoado

Efectuadas as primeiras campanhas em diversos povoados, gradualmente se foi evidenciando Cossourado como estação arqueológica de potencial interesse científico e patrimonial, o que justificou, a partir daí, uma maior concentração de esforços com vista ao seu estudo e preservação. Nesse sentido, e dando sequência ao trabalho desenvolvido, foi elaborado o designado Projecto de Musealização e Divulgação do Povoado Fortificado de Cossourado, financiado em 75% pelo II Quadro de Apoio Comunitário, ao abrigo do Sub-Programa C do PRONORTE (Programa Operacional do Norte) e, em 25%, pela Câmara Municipal de Paredes de Coura. Foi autorizado pelo Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico e enquadrou-se no Projecto de Investigação referido anteriormente. Foi posto em prática durante os anos de 1997, 1998 e primeiro trimestre de 1999.

O projecto incidiu em três domínios fundamentais:

  1. Conservação/restauro/reconstituição;
  2. Sinalização/informação;
  3. Divulgação do povoado.

5.1. Objectivos

Como resultado dos trabalhos de escavação arqueológica que se tinham vindo a efectuar, desde 1993, verificou-se a necessidade de se proceder à sua musealização e divulgação, de modo a que, de uma forma compreensível, os conhecimentos científicos adquiridos pudessem chegar à população, possibilitando uma dinâmica fruição deste espaço cultural.

O projecto [1] obedeceu a uma filosofia em que o princípio básico radicou na informação objectiva e coerente, derivada da investigação arqueológica. Visou beneficiar uma das estações arqueológicas mais significativas do Alto Minho, de modo a convertê-la num pólo de dinamização pedagógica, turística e cultural. Pretendeu, nesse sentido, criar um programa de difusão que integrasse a estação arqueológica na estrutura cultural, social e económica do espaço geográfico em que se enquadra.

O espaço arqueológico passaria então a estar inserido num meio de informação dinâmico, onde, além de se atender ao relato e exposição dos eventos históricos, se plasmasse o modo como a ciência chegou às suas conclusões e se apresentasse, caso necessário, as perguntas ainda sem resposta. Pretendeu-se, desta forma, uma musealização em que a fenomenologia histórica não fosse tratada como um facto real e inquestionável, mas antes como conclusão arqueológica submetida, tal como qualquer estudo científico, à revisão permanente e, em consequência, a um factor de análise crítica por parte do espectador.

Apenas com este tipo de actuação há fruição social dos sítios arqueológicos e, simultaneamente, se põe termo ao abandono a que a maioria tem sido votada, depois de apenas ter servido os interesses de uma pequena fatia da sociedade científica. Procurou-se, assim, contribuir para evitar este estado de situações, fazendo chegar ao grande público —no fundo, o grande destinatário do projecto— os conhecimentos adquiridos com os trabalhos de escavação arqueológica e outros estudos de carácter científico.

Por tudo isto se pode aferir da importância da musealização e correcta divulgação dos trabalhos efectuados no povoado fortificado de Cossourado, que foi, assim, o primeiro, nesta área do Alto-Minho, a ser objecto de um Projecto que o tornasse capaz de ser inteligível pela população, nomeadamente a estudantil.

5.2. O Projecto de Valorização do Povoado

  1. Limpeza geral da Estação Arqueológica:
  2. Desmatação;
    Remoção de entulhos das escavações;
  3. Conservação, consolidação e restauro das unidades arquitectónicas:
  4. Estudo das estruturas e do ambiente geo-climático;
    Análise dos paramentos e argamassas presentes nas estruturas e sua deposição em campo para controlo do seu comportamento;
    Tratamento das unidades arquitectónicas descobertas;
    Conservação e restauro das estruturas de habitação, de serviços e de defesa;
    Reconstituição parcial das estruturas escavadas, sempre que essa reconstituição não altere os dados arqueológicos;
    Criação de um sistema de escoamento das águas, que inclui um processo de drenagem para cada estrutura, inserido num sistema geral;
    Conservação de cortes estratigráficos;
  5. Reconstituição, baseada nas evidências arqueológicas, de uma unidade doméstica (duas construções);
  6. Tratamento da área envolvente das estruturas do povoado e criação de zonas de circulação;
  7. Tratamento paisagístico do monte, com a reconstituição paleo-ambiental, tanto quanto possível, da flora coeva à época da habitação do povoado. Para tal, foi necessário elaborar um aprofundado estudo carpológico e antracológico prévio. Contudo, a falta de financiamento impossibilitou a concretização do repovoamento vegetal.
  8. Restauro dos materiais provenientes da escavação do povoado e criação das respectivas condições de acondicionamento e exposição no Museu Municipal;
  9. Construção de equipamentos:
  10. Beneficiação, alargamento e pavimentação do caminho de acesso (cerca de 16002) e dos percursos de visita;
    Terraplanagem e pavimentação do parque automóvel, com 500 m²;
    A construção de uma vedação em rede plastificada com poste metálico (cerca de 2000 m) foi estudada. No entanto, a sua execução foi impossibilitada por o terreno não ser propriedade da Câmara Municipal de Paredes de Coura, que se responsabilizou pela manutenção e vigilância do sítio arqueológico;
    Sinalização e legendagem interna e externa da estação arqueológica com placas indicativas de acesso rodoviário, de percursos pedestres e placas didáctico-explicativas, sendo estas últimas bilingues (português e inglês);
  11. Promoção e divulgação:
  12. Edição de desdobrável arqueológico-cultural;
    Edição de desdobrável didáctico-pedagógico;
    Edição de publicação didáctico-pedagógica;
    Edição de postais;
    Elaboração de vídeo de divulgação (acção não financiada pelo que a sua execução foi inviabilizada);
    Edição de diapositivos;
    Edição de jogo (Puzzle).

Apresentamos de seguida —dada a especificidade das diversas acções— uma descrição detalhada de como se projectou a intervenção de conservação, restauro e reconstrução de duas unidades domésticas (ponto genérico 5.2.1.5) e, posteriormente, de forma relativamente abreviada, a execução geral do projecto (pontos 5.3 a 5.6).

5.2.1. O Projecto de Conservação Física
O projecto obedeceu a uma filosofia que constitui alternativa relativamente ao modo de actuação das escolas tradicionais de conservação/restauração. O princípio básico radicou na informação objectiva e coerente, derivada da investigação arqueológica e em dois conceitos fundamentais: a) o conceito de arqueotema, expressão física de uma hipótese explicativa em função de seu contexto estratigráfico; b) o conceito de reversibilidade, não só como entidade teórica, mas igualmente como realidade efectiva.

5.2.1.1. Estruturas e o meio
A interacção entre âmbito geoclimático e estrutura arqueológica constitui um estudo fundamental no que diz respeito ao diagnóstico de processos erosivos gerais, factor básico para determinar técnicas específicas de consolidação.

O povoado fortificado de Cossourado situa-se entre 350 e 375 m de altura, dominando uma área geográfica de colinas que fazem parte de um relevo compartimentado por uma rede fluvial activa e muito desenvolvida.

O contexto litológico compõe-se de distintas variedades de granito, como principal componente, registando, também, afloramentos de xisto e filões de quartzo.

O clima é atlântico, com temperaturas moderadas e elevados índices de humidade.

As precipitações, excepcionalmente em forma de neve, cifram-se em torno de uma média de 2250 mm anuais, com um máximo em Dezembro e mínimo em Agosto.

O solo é ácido e o revestimento vegetal é caracterizado por herbáceas e várias espécies arbustivas e arbóreas.

As estruturas escavadas apresentam muros de pedra de pouca altura que definem plantas elipsoidais, sub-rectangulares e sub-circulares com traçado irregular, reflectindo a estratigrafia níveis de derrube com escassa potência. O sistema construtivo obedece a uma técnica de pedra seca, com paramentos de granito, entre os quais ocorrem alguns elementos de xisto.

O aparelho é irregular, tanto em geometria (não apresenta regularização das superfícies de encaixe), como em tamanho (variando desde pequenas cunhas até grandes unidades que definem a parte interna e a externa), e a disposição espacial (não existindo uma autêntica continuidade formal das camadas, nem regularidade nos planos dos paramentos). O alicerce corresponde a uma fiada de base assente no solo que integra, por vezes, alguns blocos de grande tamanho, não existindo alicerce.

A técnica de construção empregue —sem argamassa— implica fragilidade ou, pelo menos, falta de coesão estrutural. Este tipo de construção em pedra seca foi adulterado pelos fenómenos pós-deposicionais pelo que actualmente existe um cimentante natural, constituído por um cimento de terra (como é habitual nas argamassas arqueológicas e neste tipo de estruturas) com escassa selecção granulométrica, elevados índices de fracção fina e baixas resistências mecânicas.

Os principais processos erosivos radicam nas chuvadas —tanto difusas como torrenciais— e nas poças de água, processos derivados da elevada pluviosidade, da escassa vegetação, da geometria estrutural e da obstrução dos interstícios dos muros por depósitos pós-deposicionais. O resultado consiste numa alteração do espaço extramuros e na dissolução do substrato térreo interno.

Os processos termoclásticos apresentam incidência relativa, incluindo a hidroclastia apesar da elevada pluviosidade e da atmosfera saturada em determinadas épocas do ano. A escassa amplitude térmica (tanto diária como anual), a pouca frequência de temperaturas extremas (tanto insolações como valores abaixo de zero), e a excepcionalidade de precipitações em forma de neve, implicam que estes processos não se revistam de especial agressividade, se bem que estejam presentes e devam ser tidos em conta.

Os processos químicos e bioquímicos exercem maior actividade que os termoclásticos, afectando de maneira primordial os feldspatos. A humidade retida pelos materiais que obstruem os interstícios dos muros incrementa a sua agressividade, ao mesmo tempo que favorecem o desenvolvimento de musgos e líquenes. A conjugação de processos químicos e termoclásticos pode originar descamações devido ao coeficiente de dilatação diferencial entre paramentos e crosta, factor especialmente nocivo se impedir o desenvolvimento de patinas estáveis em face da meteorização.

5.2.1.2. Unidades de Intervenção
A – Muros
Apesar de, de certo modo, ser contrário aos resultados da investigação arqueológica (que revelaram a construção inicial com pedra seca), a argamassa existente faz parte do historial das estruturas, pelo que será mantida e empregue na consolidação posterior. Assim, o método de conservação dos muros tem como base a preservação dos materiais e das técnicas construtivas sem alterar a informação arqueológica de carácter básico, ao mesmo tempo que deve de garantir a estabilidade estrutural em relação às chuvadas torrenciais e a todos os fenómenos de erosão a que agora estão sujeitos.

A consolidação dos muros será feita com uma argamassa em tudo semelhante à que foi criada através dos tempos e que agora dá coesão às estruturas escavadas, mediante a sua aplicação nos espaços intersticiais, preenchendo o mínimo volume estrutural interno.

#Limpeza dos muros
Esta tarefa inclui a limpeza manual, com pincéis, das partículas grosseiras em excesso e o arranque de vegetação de pequeno porte, em crescimento.

#Fiada de Protecção
Ao descartar-se as reconstruções genéricas e homogéneas de todas as estruturas, a alternativa para impedir a acção directa da meteorização sobre as superfícies dos muros radica na criação de um corpo com equivalência estratigráfica, tanto no que diz respeito a materiais, como à natureza das superfícies, incorporando assim tanto conclusões sobre processos tecnoculturais da época, como sobre processos pós-deposicionais, isto é, o corpo de protecção —fiada de protecção— responde plena e integralmente a um arqueotema e, em consequência, limitar-se-á à expressão mínima necessária. Trata-se, assim, do elemento de protecção superior das estruturas, e consiste numa fiada de pedra equivalente às originais já existentes.

O elemento de descontinuidade a utilizar consiste numa fibra geotextil de coloração bege [2].

As superfícies serão tratadas com herbicida e hidrofugante.

A fiada de protecção do paramento interno e externo da muralha obedecerá aos mesmos pressupostos.

#Reconstrução das estruturas
O tratamento das unidades arquitectónicas descobertas compreende a reconstituição parcial de algumas estruturas, sempre que a mesma não altere os dados arqueológicos. Nesse caso, será empregue uma linha separadora constituída por fibra geotextil não visível. Desta forma este elemento de descontinuidade não irá alterar a informação e não será perceptível. A reconstrução propriamente dita seguirá o mesmo tipo de paramento preexistente.

No caso específico das estruturas domésticas, nomeadamente o banco adossado internamente à cabana 1, será tratado a partir de um plano diferencial em relação à fiada de protecção, dado que a sua identidade específica não admite sobrepor um volume equivalente.

As pedras que dão forma à estrutura manter-se-ão in situ, a partir de uma intervenção sobre o sedimento constituinte, aplicando uma argamassa com equivalência estratigráfica e arqueológica nos espaços inter-estruturais e no que diz respeito ao muro da cabana.

Embora inicialmente se tenha pensado aplicar resinas epoxy aos paramentos de forma a fazer a sua consolidação dos muros, por diversos factores esta solução tornou-se inviável, tendo a resina sido substituída por argamassa.

Uma vez disposta a argamassa, e no momento prévio à sua secagem definitiva, será tratada com um hidrofugante incolor.

#Sistema de drenagem
Em termos genéricos, dado que estávamos a lidar com estruturas construídas com muros fechados ou com uma pequena porta, o sistema de escoamento das águas incluirá um processo de drenagem para cada estrutura, em conexão com um sistema geral.

Este sistema não implica uma estrutura de tubos complexa para cada construção dado que o escoamento (derivado do declive a que está sujeito) e uma escavação até ao afloramento —como já havia sido feita em quase todas as estruturas escavadas— não o tornam necessário.

A área de actuação é compreendida entre a elevação central —torreão— e a linha de muralha interna. Trata-se de um espaço anular, em plano inclinado, com linhas de pendente no sentido perpendicular à muralha.

Neste espaço, e em conexão com a divisão arqueológica, definiram-se quatro sectores que representam três sistemas de drenagem independentes:

  • Sector A. Integra as estruturas 1, 2 (destruída), 3, 4 e 5, o espaço externo que estas definem, o segmento de muralha correspondente à longitude do arco do sector, e o espaço intramuros compreendido entre a muralha e as estruturas domésticas.
  • Sector A/E. Integra as estruturas 6 e 7, e o resto dos espaços equivalentes aos definidos no Sector A.
  • Sector C. Integra duas estruturas domésticas de planta circular, assim como o resto dos espaços equivalentes aos definidos nos sectores anteriores.
  • Sector D. Inclui o troço de muralha escavado.

Todas as linhas radiais de pendente (perpendiculares) ao paramento interno da muralha apresentam um valor descendente com a média próxima dos 7°. Por seu turno, as pendentes laterais de cada sector apresentam uma tendência situada nos 0°, pelo que não é possível existirem conexões laterais que sejam perpendiculares às condutas radiais.

A solução para neutralizar os efeitos derivados destes processos radica num sistema de drenagem eficaz, desenhado de forma a que expulse a água no mínimo tempo possível, responda a um carácter reversível, não altere a informação sobre a natureza das superfícies internas das estruturas de habitat e não sejam visíveis em ponto algum os elementos de escorrimento. Desta forma, deverá aproveitar ao máximo os factores topográficos e geomorfológicos.

Dada a especificidade de cada estrutura, será tido em conta a conjugação de vários métodos tais como: o aproveitamento da pendente natural; a escavação dos sedimentos até à rocha-base; a criação de um declive artificial com terras arqueológicas (já analisadas).

Elementos a colocar nas estruturas, debaixo para cima, depois da limpeza específica:

  • Fibra geotextil de 110 grs/m², permeável ao vapor de água e impermeável à água, extensiva a toda a planta. Constitui o elemento de descontinuidade estratigráfica imposto pelo conceito de reversibilidade, e além disso supõe um elemento que impede a absorção de água por parte do substrato subjacente, ao mesmo tempo que permite uma transpiração normal para evitar secagens excessivas;
  • Camada de gravilha, compacta;
  • Camada de terra proveniente da estação arqueológica, seleccionada segundo a granulometria mais representativa documentada em escavação e eliminando as fracções finas que tenham capacidade impermeabilizadora.
  • Impregnação com herbicida das três camadas constitutivas.

No projecto inicial, que posteriormente se verificou ser inviável e desnecessário, o sistema de drenagem era bastante mais complicado, sendo constituído por um sistema de colectores e colocação de diversas camadas semelhantes às utilizadas, pelo que responderia à mesma sucessão de elementos, adaptando a espessura de cada uma das camadas, embora variando a geometria, tamanho e disposição de colector.

5.2.1.3. Tratamento dos pisos internos e da área envolvente
As estruturas já escavadas até à rocha base, em que esta servia de piso de ocupação, tal como as áreas exteriores, serão deixadas sem tratamento.

Nos locais onde o piso de ocupação seja constituído por sedimentos saibrentos ou apenas terra, o sistema utilizado obedecerá a diversas fases: nivelamento do terreno (mantendo-se, no entanto, a inclinação natural do mesmo); colocação de uma manta geotextil e uma camada de gravilha com 10 cm de espessura; deposição de uma camada de terras arqueológicas, também com 10 cm de espessura.

Na área mais alargada e não escavada do povoado pretendia-se fazer o tratamento paisagístico do monte, com a reconstituição paleo-ambiental, tanto quanto possível, da flora coeva à época da habitação, baseada nos resultados do estudo carpológico e antracológico.

5.2.1.4. Perfis Estratigráficos
Uma das bases fundamentais da difusão da estação arqueológica tem como base as sequências estratigráficas. Não se pode falar de divulgação integral se o espectador não tiver a possibilidade de se confrontar com a cronologia relativa, que é parte integrante da explicação do sítio arqueológico.

A sequência sedimentar do povoado fortificado de Cossourado apresenta uma escassa potência estratigráfica e poucas variações, pelo que a consolidação de um ou dois cortes estratigráficos seria suficiente e representativa do todo.

Esta acção, a ser necessária, será feita do seguinte modo:

  1. Limpeza e verticalização do perfil estratigráfico;
  2. Impregnação com herbicida;
  3. Impregnação com hidrofugante, com a finalidade de impermeabilizar as superfícies;
  4. Impregnação com resina sintética diluída, dando coesão às superfícies, aumento da impermeabilidade e constituindo um travão à vegetação.
  5. No caso de o corte estratigráfico estar já em adiantado estado de destruição, esse será reconstituído mediante a colocação de pedras e terra amassada, com resinas sintéticas com equivalência granulométrica, morfométrica, mineralógica e disposição espacial igual à dos elementos arqueológicos.

5.2.1.5. Reconstituição de uma unidade doméstica
A concepção de um programa de musealização de um sítio arqueológico implica a elaboração de um plano no qual se articulam os valores patrimoniais existentes, o ambiente envolvente, as estruturas de apoio a construir ou a recuperar e o que se pretende que seja visto e interpretado pelo utente cultural. Implica, na mesma ordem de ideias, a sua sustentação numa investigação científica rigorosa e pormenorizada, alicerce indispensável de todo o trabalho a desenvolver.

A apresentação ao grande público dos dados científicos obtidos através da escavação arqueológica deverá, numa fase seguinte, ser efectuada de uma forma susceptível de possibilitar a sua compreensão imediata e sem abrir caminho a interpretações incorrectas.

A musealização de um povoado fortificado tem, de acordo com esta perspectiva, que passar necessariamente não apenas pela consolidação e restauro das estruturas encontradas, mas também pela reconstituição completa de algumas das suas unidades ocupacionais.

Apesar dos riscos inerentes que se assumem, dado, por exemplo, o não conhecimento exacto da altura das paredes e do sistema de cobertura, a construção deste tipo de estruturas numa estação escavada provoca um considerável impacto no visitante, não apenas de ordem visual mas de atracção para a descoberta das construções e para a retenção de ensinamentos.

A reconstituição das estruturas no povoado fortificado de Cossourado será baseada nas evidências arqueológicas de uma unidade doméstica, que contemplará duas construções-modelo: uma estrutura circular fundamentalmente com funções de habitação e uma estrutura sub-rectangular relacionada provavelmente actividades artesanais. Após a sua reconstrução, com inclusão da respectiva lareira, terão como finalidade a exposição temporária de materiais e/ou de réplicas dos achados arqueológicos mais significativos do povoado, caso exista no mesmo, tal como se previa, um vigilante. Tais reconstruções deverão, assim, ser encaradas como museus vivos onde se recria a vivência dos povos que as construíram e ocuparam. Cumpre-se, desta forma, a vertente pedagógica imprimida a estas réplicas, elaboradas com o máximo rigor e cientificidade possíveis.

O local escolhido para a reconstrução das duas estruturas situa-se no designado Sector F, a cerca de 8,70 m do topo NE do sector E. Está implantado numa área com pouco declive, que se desenvolve, sensivelmente, de sul para Norte, entre o “torreão” e a cintura de defesa interna, próximo da zona mais alta do povoado, com um pendor de um metro e noventa e cinco.

A escavação deste sector —que apresenta uma área escavada de 224 m²;— permitiu que se atingissem profundidades máximas de apenas 25 cm, tendo-se encontrado apenas duas estruturas (1F e 2F) em elevado grau de destruição. Foram escavadas na sua totalidade, tendo fornecido pouquíssimo espólio arqueológico. A escolha deste local para a reconstrução das estruturas prendeu-se, pois, com diversos factores: a grande destruição das estruturas; a impossibilidade de se efectuar uma reconstituição fiel das mesmas; a implantação do sector num dos locais melhor posicionados do circuito de visita; o facto de ser uma área escavada até ao solo de base, não se correndo, assim, o risco de se sobrepor as cabanas a outros níveis estratigráficos. Trata-se, em suma, de um sector já exaustivamente estudado, que não oferece dúvidas científicas passíveis de resolução e que não permite a recolha de outros elementos para além dos já obtidos.

As estruturas seguirão o padrão existente no povoado, procurando-se aproveitar, tanto quanto possível, as plantas existentes. Considerando o seu elevado grau de destruição, serão criadas, com base nas estruturas do povoado, duas plantas modelo —uma sub-circular e outra sub-rectangular (com cantos curvos). No sentido de respeitar as evidências arqueológicas, a correcção do alinhamento e dos prumos dos paramentos será executada com o auxílio do desenho planimétrico elaborado aquando das escavações arqueológicas.

A consolidação dos muros utilizará uma argamassa semelhante à criada através dos tempos e que actualmente dá coesão às estruturas escavadas, mediante a sua aplicação nos espaços intersticiais, preenchendo o mínimo volume estrutural interno.

Após a consolidação das estruturas existentes, será necessário efectuar a reconstituição de algumas partes dos muros respectivos, seguindo o tipo de paramento preexistente, sendo utilizada para o efeito a pedra proveniente da camada de derrube.

As estruturas serão tratadas com um hidrofugante incolor e um biocida.

Aquando da elaboração do Projecto e porque se trata da reconstrução de estruturas das quais se desconhece com exactidão a sua altura —embora, por analogia, nos possamos aproximar e consideremos não existir uma altura padrão—, foi necessário realizar um estudo pormenorizado de todas as estruturas do povoado. Fizeram-se cálculos partindo da medida actual dos muros e acrescentando a altura da camada de derrube, depois de colocada verticalmente. Estas sucessivas reconstruções (foram estudadas 10 estruturas) apontaram para medidas de cerca de 1,80 m, altura que seria a real, aquando da construção do povoado. Paralelamente, consultámos vasta bibliografia sobre o assunto e visitámos os povoados castrejos (todos eles mais tardios que o de Cossourado) que possuem estruturas similares reconstruídas.

Outro elemento a ter em conta são as portas das estruturas a reconstruir. Se temos certezas quanto à sua largura (cerca de 80 cm, em média), o conhecimento da sua altura é falível. No entanto, face a uma parede de 1,80 de altura, a porta seria, necessariamente, mais baixa.

Como no povoado não possuímos padieiras, ombreiras e soleiras em pedra, estes elementos serão construídos da seguinte forma:

  • Padieira: em madeira de carvalho seco e envelhecido;
  • Ombreiras: em pedra igual às paredes, sem qualquer remate especial;
  • Soleiras: não serão colocadas;
  • Porta: feita em troncos de carvalho, entrelaçados com elementos vegetais (por imposição do IPPAR não foram construídas).

A cobertura das cabanas é também desconhecida, havendo, no entanto, indícios que apontam para a existência de formas cónicas, no caso das estruturas circulares, e de duas águas, nas rectangulares.

Para suprir a escassez de conhecimentos socorremo-nos de estudos realizados até ao momento, das analogias com outras épocas e “culturas” e mesmo do exemplo etnográfico de construções cujo sistema construtivo é semelhante, nomeadamente no Alto Minho e na Beira Interior (Mangualde, Viseu, Marvão: Oliveira et al., 1988). No concelho de Paredes de Coura existiam, igualmente, estruturas similares, com cobertura em colmo e/ou giesta, ainda utilizadas para fins agrícolas.

A cobertura das estruturas escavadas neste povoado foi elaborada, certamente, com materiais perecíveis e nunca com tégula e ímbrice, pois estes elementos não foram encontrados durante a escavação.

A estrutura cónica de cobertura da cabana circular pousará directamente sobre uma estrutura de madeira que, por sua vez, irá assentar no alto da parede (não temos indicações da existência de buracos de poste ou de qualquer outro sistema de fim idêntico).

Nas construções alongadas não possuímos, igualmente, indicações sobre a existência de postes centrais. Contudo, apesar de ser nosso propósito construir estruturas muito baixas, as condições climatéricas da zona dificultarão bastante a manutenção de um telhado de duas águas que não esteja preso ao solo. O telhado de uma água também não seria viável, pois implicaria no registo arqueológico uma discrepância em termos de altura dos derrubes, sendo a parede oposta à da entrada mais alta, facto que não se verifica.

A cobertura, de duas águas, será constituída por um travejamento assente no topo da parede. As partes curvas do sistema de cobertura serão construídas com paus dispostos em raio, e as partes rectas com travessas, que se fixarão na trave central.

O travejamento que configurará o telhado cónico da cabana circular e o de duas águas da estrutura sub-rectangular será construído com madeira de carvalho seco e envelhecido, cuja utilização, à data da ocupação do povoado, foi confirmada pelas análises antracológicas realizadas.

5.3. A execução do projecto de conservação, restauro e reconstituição

A conservação, consolidação e restauro das unidades arquitectónicas dos sectores A, E e C obedeceu ao seguinte esquema:

  • Estudo das estruturas e do ambiente geo-climático;
  • Análise dos paramentos e argamassas presentes nas estruturas;
  • Escolha das argamassas a aplicar no restauro;
  • Estudos de pormenor para definição das entradas das estruturas 1 e 4;
  • Limpeza, conservação e restauro e reconstituição parcial de todas as estruturas que haviam sido escavadas até à data de execução do projecto, não alterando, contudo, os dados arqueológicos;
  • Criação de um sistema de drenagem geral e particular.

Figura 1

Fig. 1. Vista parcial do sector A no final da escavação arqueológica e após a escavação de áreas sem estruturas, a desmontagem dos testemunhos de cortes estratigráficos e o nivelamento do solo.

Os trabalhos relativos ao primeiro dos pontos enunciados iniciaram-se com a realização de um estudo do ambiente geo-climático, dos agentes erosivos e respectivas soluções de minimização de efeitos, ao qual se seguiu a desmatação de grande parte do plateau onde decorreram os trabalhos e a remoção dos entulhos resultantes das campanhas arqueológicas efectuadas em anos anteriores.

De imediato, e tendo em linha de conta as evidências arqueológicas resultantes dos trabalhos de escavação, procedeu-se à limpeza do espaço de intervenção do restauro, à limpeza dos muros e à limpeza do interior das estruturas, o que implicou a escavação até ao solo de base de todas as cabanas que ainda não haviam sido totalmente escavadas, com particular incidência nas cabanas 5, 7E, 8E, 1C e 2C.

Procedeu-se à escavação de áreas sem estruturas, à desmontagem dos testemunhos referentes aos cortes estratigráficos 1A, 3A e 1C e ao alisamento e nivelamento dos sectores A, E e C.

O alisamento e nivelamento dos vários sectores —nomeadamente no interior e exterior das estruturas— obedeceu a um plano possível de alinhamento das superfícies de terreno, numa lógica de aproveitamento do escoamento natural das águas, de acordo com a inclinação que se verifica no suporte de ocupação das estruturas.

Nesse sentido, escavou-se criteriosamente até se atingir um nível inferior ao nível de ocupação (afloramento granítico, regra geral), e criaram-se pendentes vectoriais de escoamento das águas de superfície de dentro das estruturas para um local de saída, resultando na obtenção de um interior mais alto que escoa para o exterior mais baixo. Noutros casos, pelo contrário, teve que se elevar o nível do solo com a deposição de terras, a fim de se obter o efeito pretendido. Desta forma, ficou, desde logo, preparado o terreno para a implantação do sistema de drenagem.

O método de conservação dos muros teve como base a preservação dos materiais e das técnicas construtivas sem alterar a informação arqueológica de carácter básico, ao mesmo tempo que teve de garantir a estabilidade estrutural em relação às chuvadas torrenciais e a todos os fenómenos de erosão a que agora estão sujeitos. Desta forma, foram feitas análises e estudos aos paramentos e argamassas das estruturas. Fizeram-se, igualmente estudos de vários tipos de argamassa fabricadas na própria estação arqueológica e posteriormente —passados 28 dias— partidas em laboratório (Figura 2). A resistência mecânica teria de ser suficientemente elevada para suster os processos de capilaridade ascendente. Uma vez escolhida, a argamassa, no momento prévio à sua secagem definitiva, seria tratada com um hidrofugante incolor.

Figura 2

Fig. 2.

Os estudos de pormenor para definição das entradas das estruturas 1 e 4 permitiram alcançar o objectivo pretendido, complementado, posteriormente, com as respectivas acções de consolidação e restauro.

A limpeza, a conservação e o restauro das estruturas de habitação e de serviços dos sectores A (estruturas 1, 3, 4, 5, 6 e 9) e E (estruturas 7 e 8 E) obedeceram a uma metodologia que constou de diversas fases, conforme descrito no projecto e aqui sintetizada.

#Fase 1: Limpeza dos muros
Incluiu, num primeiro momento, a limpeza manual, com pincéis, das partículas grosseiras em excesso e o arranque de vegetação de pequeno porte, em crescimento; no segundo, constou de uma limpeza dos perfis originais das estruturas que não sofreram alterações de prumo e alinhamento.

#Fase 2: Alinhamento e verticalização dos muros das estruturas
No sentido de respeitar as evidências arqueológicas, a correcção do alinhamento e dos prumos dos paramentos foi executada com o auxílio do desenho planimétrico elaborado aquando das escavações arqueológicas.

Assim, as pedras originais deslocadas foram encaixadas no seu devido lugar e, com auxílio de outras provenientes das estruturas derrubadas (camada de derrube), alinharam-se e verticalizaram-se as paredes. Em alguns casos, de forma a conferir maior solidez estrutural, preencheram-se os interstícios das pedras e reforçou-se a base de sustentação dos muros.

Este trabalho inicial foi concebido e executado sem a utilização de argamassa, e levado a cabo por pedreiros, sob a orientação do técnico de restauro e do arqueólogo responsável.

Figura 3

Fig. 3. Alinhamento e verticalização dos muros das estruturas.

#Fase 3: Consolidação dos muros
Nos casos em que não houve necessidade de se proceder à alteração do prumo e do alinhamento das estruturas, efectuou-se, apenas, uma limpeza mecânica da superfície e dos paramentos, com utilização de vassouras, colherins e água, tendo-se retirado raízes, terras infiltradas e desagregações de pedras. A ocasião foi aproveitada para realizar pequenas correcções nas superfícies, juntar pedras fracturadas e, em alguns casos, aplicar argamassa, envolvendo e calçando as pedras intervencionadas.

Figura 4

Fig. 4. Consolidação dos muros.

Corrigidos os perfis, procedeu-se à aplicação da argamassa no enchimento dos paramentos, com o objectivo de criar um interior consolidado, de modo a que a mesma não fosse visível no exterior das estruturas e entre as juntas de superfície.

A este trabalho seguiu-se um outro de acabamento, efectuado com pincel, trinchas e água. As juntas de superfície e os paramentos que apresentavam argamassa visível foram pincelados/lavados com água, proporcionando, simultaneamente, a melhor adesão do consolidante à junta, a redução da espessura da argamassa, a remoção dos excedentes e a lavagem dos paramentos. Seguidamente, aplicou-se terra sobre a argamassa, simulando a lama original.

A argamassa aplicada é constituída por 3/4 de areia de rio (de granulometria fina/média, de cor amarelada clara), misturada com terra peneirada, e 1/4 de ligante, constituído por 75% de cal hidráulica, 15% de cimento (para possibilitar uma presa mais rápida) e 10% de aditivo sintético (pó redespersível RI 551 Z). Este aditivo é utilizado para promover a adesão, ter uma acção hidrofugante e reduzir a rigidez da massa após a secagem.

O banco adossado à parede da cabana 1 teve igualmente de ser intervencionado, como a seguir descrevemos (Figura 5).

Figura 5

Fig. 5. Consolidação do banco adossado à parede da cabana 1.

Nos locais onde existiam lajes in situ, bem como o respectivo muro de sustentação, procedeu-se, apenas, a um ligeiro alinhamento e consolidação da estrutura. No restante, teve que se efectuar a sua reconstituição. Para esse efeito, foi criado, em determinados pontos, um suporte com pedras de derrube —paramento organizado com pedras originais de igual porte, embora valorizando a função de sustentação. Nos locais onde não existiam, as lajes, depois de criteriosamente seleccionadas, foram colocadas de acordo com o modelo.

Para a sua consolidação e reconstituição aplicou-se uma argamassa constituída por 75% de areia e terra, de variada granulometria, e 25% de cimento. Esta argamassa, valorizada com a utilização de maior percentagem de cimento, encontra justificação na necessidade de utilizar um ligante com uma presa rápida que sustente uma enorme carga, como são as lajes do banco.

#Fase 4: Reconstituição das estruturas
Após a consolidação das estruturas existentes foi necessário fazer a reconstituição de algumas partes dos muros respectivos.

Esta reconstituição, parcial, foi elaborada de forma a não alterar os dados arqueológicos. Importa, ainda, referir que, após se proceder à análise de várias soluções, se optou por criar uma divisória entre o muro de origem e a parte reconstruída, mediante a colocação de uma fibra geotêxtil. Este elemento de descontinuidade, apenas visível na parte interna das estruturas, criou uma divisória entre o muro original e a parte reconstruída, não alterando a informação, não sendo perceptível e estando de acordo com o conceito de reversibilidade.

Antes da sua aplicação, a tela separadora foi furada com cortes de tesoura e, depois, presa com argamassa. Posteriormente foi aparada com tesoura e queimada (Figura 6).

Figura 6

Fig. 6. Fase final de tratamento da consolidação do banco adossado à parede da cabana 1.

Figura 7

Fig. 7. Perspectiva final da tela de separação.

A reconstituição, propriamente dita, seguiu o tipo de paramento preexistente, tendo sido utilizada a pedra proveniente da camada de derrube. O perfil dos muros, no final, foi deixado o mais irregular possível, tendo-se o cuidado de não ficar argamassa visível (Figura 8).

Figura 8

Fig. 8. Aspecto final dos muros.

A argamassa foi aplicada apenas nas juntas interiores e os excedentes foram retirados pelo processo já mencionado. Posteriormente, foi feito um acabamento, para preenchimento dos interstícios horizontais, misturando-se na argamassa mais terra e granito triturado. Os interstícios verticais do perfil do muro foram também preenchidos com grandes quantidades de terra e lama.

Uma vez disposta, no momento prévio à sua secagem definitiva a argamassa foi tratada com um hidrofugante incolor e um biocida (Figura 9).

#Fase 5: Sistema de drenagem
As chuvadas e as poças de água resultantes constituem o primeiro factor de erosão das estruturas de Cossourado, factores esses que activam distintos processos químicos nos paramentos. Os efeitos da chuva intensificam-se com a grande pendente geral sobre a qual assenta o sítio arqueológico —pendente que é maior na elevação imediata aos sectores A, C e E (torreão)— e com o escasso revestimento vegetal existente nas áreas escavadas.

A solução para neutralizar os efeitos derivados destes processos encontrou-se na construção de um sistema de drenagem eficaz, desenhado de forma a que expulse a água no mínimo tempo possível, responda a um carácter reversível, não altere a informação sobre a natureza das superfícies internas das estruturas de habitat e não seja visível. Desta forma, aproveitaram-se ao máximo os factores topográficos e geomorfológicos.

A primeira unidade de intervenção a ter em conta no sistema de drenagem consistiu em desviar os distintos fluxos provenientes da elevação imediata aos Sectores A, C e E (o torreão), intervenção que foi levada a cabo com base no máximo aproveitamento dos factores topográficos e na construção de obstáculos com materiais de ladeira de aparente disposição aleatória, com a finalidade de não gerar alterações visuais; isto é, um sistema de barreiras que desviasse a escorrência proveniente desta zona e não fosse perceptível à vista. Pretende-se que as estruturas só tenham que desaguar o volume correspondente à precipitação directa.

Figura 9

Fig. 9. Aplicação de hidrofugante e biocida.

Em termos genéricos, dado que estamos a lidar com estruturas construídas com muros fechados ou com uma pequena porta, o sistema de escoamento das águas inclui um processo de drenagem para cada estrutura, em conexão com um sistema geral. Este sistema não implicou uma estrutura de tubos complexa para cada construção, dado que o escoamento (derivado do declive a que está sujeito) e uma escavação até ao afloramento não a tornaram necessário.

A área de actuação, como mencionado, foi a compreendida entre o referido torreão e a linha de muralha.

Dada a especificidade de cada estrutura, houve a conjugação de vários métodos tais como: o aproveitamento da pendente natural; a escavação dos sedimentos até à rocha-base; a criação de um declive artificial com terras arqueológicas. Este processo foi feito pelo nivelamento do terreno, com a inclinação natural do mesmo, ao que se sobrepôs uma manta geotextil, uma camada de gravilha com 10 cm de espessura e, por fim, terras arqueológicas, também com 10 cm de espessura (Figura 10).

Figura 10

Fig. 10. Processo de construção do sistema de drengem

Após as grandes chuvadas ocorridas, pudemos constatar a eficácia deste sistema, pelo que os frequentes encharcamentos, anteriormente existentes, deixaram de se verificar.

Os trabalhos de reconstituição das estruturas ficaram concluídos com a construção integral, baseada nos dados obtidos através da escavação arqueológica, de duas construções-modelo: uma circular e uma alongada, de maiores dimensões (Figura 11). Tal como em relação às restantes construções, foi aplicada nestas cabanas apenas pedra recolhida nas escavações arqueológicas do povoado. Para uniformização do tom das pedras, externamente, as estruturas foram pintadas com uma solução de água, terra e um aditivo sintético (pó redespersível RI 551 Z).

Figura 11

Fig. 11. Trabalhos de reconstituição das estruturas habitacionais.

A cobertura construída em madeira assenta directamente a sua estrutura no limite superior da parede, sem o auxílio de qualquer elemento de sustentação. A madeira foi tratada e escurecida através de fogueiras feitas para o efeito. Não são visíveis os pregos que seguram as traves.

Infelizmente, dada a dificuldade de cumprimento de prazos, não foi possível construir estas coberturas, como havíamos preconizado no projecto, com o carácter rústico (com troncos e galhos) semelhante ao que teriam na Idade do Ferro.

As análises antracológicas efectuadas nos restos lenhosos carbonizados recolhidos nas diversas campanhas arqueológicas indicam como maior probabilidade a giesta como material utilizado no sistema de cobertura. No entanto, optou-se por aplicar o colmo, por uma questão de durabilidade, de resistência e pelo facto de ser mais impermeável à acção das chuvas abundantes que habitualmente se registam na região. O colmo utilizado inicialmente foi produzido em Paredes de Coura, tendo a Câmara Municipal alugado um campo e posteriormente semeado centeio. Após a maturação foi ceifado manualmente de forma a não se quebrarem as palhas.

Tal como todos os trabalhos e consolidação, restauro, drenagem, entre outros, também a colmagem foi executada por funcionários da Câmara Municipal de Paredes de Coura, assim como a sua manutenção e renovação, sendo a última em Agosto de 2008.

5.3.1. Tratamento da área envolvente às estruturas dos sectores A, E e C
O tratamento da área envolvente dos sectores A, E e C consistiu: na desmatação dos espaços escavados e áreas adjacentes; na escavação de espaços desprovidos de estruturas arqueológicas; na desmontagem dos testemunhos referentes a cortes estratigráficos; no alisamento e nivelamento de todas as áreas exteriores às estruturas já escavadas, de modo a torná-las mais amplas, limpas de terras e pedras, perceptíveis e agradáveis ao visitante. Posteriormente, toda a área foi tratada com herbicida, a fim de evitar a proliferação, normalmente rápida, da vegetação de pequeno porte.

Com uma finalidade pedagógica, foi deixada à superfície, a sul do sector A, a escavação em área da camada 2, formada pela pedra de derrube. Desta forma, os visitantes têm visíveis no terreno as várias camadas (geralmente três), em área e em perfil.

5.3.2. Tratamento da área envolvente do povoado
Considerando a densa vegetação, alguma de elevado porte, que cobria o plateau onde decorrem as escavações arqueológicas e respectiva musealização, o que impedia o alargar dos trabalhos para Norte, tornou-se necessário proceder à sua eliminação. Os trabalhos alargaram-se também à desmatação parcial e à limpeza da vegetação rasteira e arbustiva em todo o povoado.

No âmbito da acção de limpeza do sítio arqueológico, efectuou-se, igualmente, a remoção de entulhos resultantes das escavações realizadas nos anos anteriores.

Na área mais alargada e não escavada do povoado pretendia-se fazer o tratamento paisagístico, com a reconstituição paleo-ambiental (o mais aproximadamente possível) da flora coeva à época da habitação, baseada nos resultados do estudo carpológico e antracológico que identificaram diversas espécies vegetais, contudo, a falta de financiamento impossibilitou a sua execução.

Paralelamente a estas acções, efectuou-se a beneficiação do caminho de acesso ao povoado, através do alargamento e pavimentação do mesmo, numa extensão de aproximadamente 500 metros (cerca de 1600 m²), e procedeu-se, igualmente, à terraplanagem e pavimentação do parque automóvel (500 m²).

O traçado do caminho aproveita o caminho carreteiro existente, que liga a base do monte à área escavada. A sua beneficiação obedeceu a dois tipos de pavimentação: a “calceta” (Figura 12) e a gravilha grossa. Até ao depósito de águas existente na encosta NE do monte, externo à zona arqueológica, o pavimento foi construído com calçada irregular de granito usado, designado na área por “calceta”. Seguidamente, o acesso é pedestre, sendo o pavimento constituído por gravilha granítica, grosseira, até à área arqueológica limitada pelo terceiro e externo anel de muralha.

Figura 12

Fig. 12. Trabalhos de beneficiação do caminho de acesso.

5.4. Conservação e restauro do espólio arqueológico

A conservação e restauro do espólio arqueológico proveniente das escavações efectuadas, desde 1993, no povoado de Cossourado realizou-se durante vários anos, por diversos técnicos de conservação e restauro, dos laboratórios de conservação e restauro da Universidade Portucalense, no Porto e do Museu Regional de Arqueologia de D. Diogo de Sousa, em Braga.

Foram também criadas as respectivas condições de acondicionamento da colecção e seleccionadas as peças que figuram na exposição no Núcleo de Arqueologia do Museu Regional de Paredes de Coura, concluído em Agosto de 2005.

5.5. Sinalização/informação

A sinalização/informação deste sítio arqueológico consistiu na colocação de dois tipos de placas: as placas indicativas de acesso rodoviário e as placas didáctico-explicativas (Figura 13). As primeiras foram colocadas em pontos estratégicos de acesso ao povoado, nomeadamente nas Estradas Nacionais e caminhos municipais; as segundas, bilingues e em número de quatro, foram distribuídas pela estação arqueológica, cada qual com uma função distinta: apresentação do povoado, caracterização do habitat, explicitação do sistema defensivo e apoio ao núcleo construído. Esta última em latão embutida em afloramento granítico (desaparecida recentemente).

Figura 13

Fig. 13. Sinalização da estação arqueológica.

5.6. Divulgação

A divulgação da estação arqueológica acompanhou, sob diversas formas, todos os trabalhos de investigação desde 1993. No entanto, porque se entende ser uma vertente fundamental em todo o processo e de primordial importância no domínio da formação da comunidade em geral e, por consequência, da preservação do património, foi substancialmente reforçada com a realização deste projecto. Elaborou-se, nesse sentido, diverso material de divulgação, com características marcadamente pedagógicas: dois desdobráveis (um destinado ao público juvenil e outro ao público adulto —Figura 14), um jogo didáctico do tipo puzzle, uma colecção de postais e outra de diapositivos e um livro profusamente ilustrado, de leitura fácil, que pretendeu sintetizar os conhecimentos obtidos até à data da sua publicação (Silva e Silva, 1999 —Figura 15). Para apoio a estes materiais de divulgação foram efectuados diversos desenhos, retratando, com base nos dados obtidos, actividades e cenas da vida quotidiana do povoado.

Figura 14

Fig. 14. Material de divulgação: desdobrável.

Figura 15

Fig. 15. Material de divulgação: livro.

A elaboração destes materiais de promoção e divulgação foi da responsabilidade de vários profissionais da imagem, nomeadamente um fotógrafo, um desenhador e um designer. A redacção dos diversos textos (desdobráveis e publicação) foi, por sua vez, da responsabilidade dos signatários.

Para além do trabalho específico destinado à promoção e divulgação, o fotógrafo contratado acompanhou, também, todas as fases do restauro arqueológico, registando devidamente as etapas mais significativas.

5.7. A continuidade do projecto de valorização e divulgação do povoado de Cossourado

Findo o Projecto de Musealização e Divulgação houve que dar continuidade às acções de limpeza, consolidação, restauro de novas estruturas postas a descoberto, assim como, dar apoio, a alunos universitários que têm feito desta estação arqueológica uma estação-escola, com uma significativa componente prática de aquisição/aplicação de conhecimentos.
Nas intervenções seguintes a 1999 foi concluído o restauro da secção escavada da muralha interna e restauraram-se duas novas estruturas escavadas, designadamente as cabanas 1H e 3H (Figura 16).

Outro dos objectivos sempre presente antes, durante e depois de todas as intervenções é a manutenção, divulgação e rentabilização da estação. Assim, foi também efectuado, uma vez mais, o arranjo do caminho, de forma a receber mais dignamente todos os visitantes, e o corte de alguma da vegetação arbustiva e arbórea que cobre com densidade o povoado.
Infelizmente, algumas das placas explicativas e sinalizadoras do povoado foram alvo de actos de vandalismo, tendo sido crivadas de balas. Por esse motivo, tiveram de ser elaboradas outras, que foram recolocadas nos seus lugares.

No sentido de se promover a divulgação turístico-cultural do povoado e respectivo projecto de musealização, tiveram lugar outras acções também não contempladas no projecto:

  • Elaboração de diversos trabalhos jornalísticos publicados na imprensa nacional, regional e local;
  • Participação em diversos programas de estações de rádio nacionais e regionais;
  • Participação em reportagens realizadas na estação arqueológica pela R.T.P.;
  • Publicação de trabalhos de divulgação do povoado e do Projecto (Silva e Silva, 1995-97);
  • Organização de Campos Internacionais de Arqueologia, onde colaboraram estudantes e licenciados de vários locais e faculdades do país e do estrangeiro, com especial relevo para as Universidades de Granada e de Santiago de Compostela.

Figura 16

Fig. 16. Intervenções posteriores a 1999.

Figura 17

Fig. 17. Perspectivas do povoado (sector A) e torreão em 2004.

5.8. Estratégias pedagógicas de dinamização e divulgação: uma experiência de “história ao vivo”

O contacto com o mundo escolar courense foi mantido desde os primeiros trabalhos arqueológicos que desenvolvemos neste concelho em 1989. Contacto esse que se concretizou das mais diversas formas:

  • Através de palestras e de aulas;
  • Na redistribuição dos inquéritos toponímico-arqueológico e artístico-documental à população do concelho. Este projecto desenvolvido em parceria com a E.B. 2/3 de Paredes de Coura, fez de cada aluno um colaborador, na medida em que cada um levou aos diversos lugares das 21 freguesias do concelho estes inquéritos, possibilitando um contacto directo com a população, um interesse renovado pelo património de cada lugar e um acréscimo precioso de informação para o nosso projecto;
  • Através dos cursos de verão que elaboramos, designados genericamente de Cursos de Sensibilização do Património, que abrangeram módulos das mais diversas áreas relacionadas com um tema organizador;
  • Através da participação dos jovens do concelho nos inúmeros projectos de ocupação dos tempos livres das férias de verão, que submetíamos ao financiamento do Instituto Português da Juventude, e que, desta forma, canalizavam, estes jovens para as campanhas de escavação nos diversos povoados

No entanto, um dos pontos mais altos desta actividade didáctico-pedagógica de sensibilização para o património em geral e, em especial, para o arqueológico, foi a reconstituição história realizada no povoado fortificado de Cossourado.

Evidentemente que uma actividade deste tipo e com a envergadura que esta acabou por ter necessitava da criação prévia de condições. As diversas reuniões com as escolas do concelho e a nossa vontade não chegavam. Era premente a realização de escavações numa área considerável e a conservação, restauro e valorização da área intervencionada. Após a realização do Projecto de Musealização e Divulgação estavam, então, criadas as condições no povoado para que a actividade fosse um êxito. Um povoado com uma parca zona escavada, em que as ruínas causavam um impacto desolador, não poderia deixar marcas positivas. A dignidade que a execução do mencionado projecto conferiu ao povoado foi essencial para tornar possíveis todas as actividades futuras de divulgação e dinamização.

A experiência de “História ao Vivo” realizou-se então no Povoado Fortificado de Cossourado, no ano lectivo de 1999/2000, por alunos do 2º e 3º ciclos da Escola E.B. 2,3/S de Paredes de Coura, no âmbito do Plano Anual de Actividades da escola e a servir, de preferência, como tema aglutinador do projecto da Área-Escola, teria por base determinados objectivos de carácter pedagógico, fundamentalmente relacionados com os domínios cognitivo e afectivo. No essencial, e sem qualquer ordem de importância, pretendia-se:

  • Proporcionar a aprendizagem através do contacto com uma realidade distante no tempo e diferente da actual em todos os pormenores;
  • Contribuir para o desenvolvimento da compreensão empática, colocando o aluno no papel de pessoas de outra época e de outra cultura;
  • Proporcionar a realização do ensino experimental em História;
  • Incentivar o sentimento de pertença a um grupo/comunidade;
  • Desenvolver o gosto pela investigação;
  • Desenvolver o sentido crítico, a imaginação criativa e a sensibilidade estética;
  • Sensibilizar para o respeito e compreensão do significado do património histórico;
  • Divulgar e dinamizar o património local, nomeadamente o arqueológico.

Aprovada, posteriormente, em Conselho Pedagógico, a proposta foi, depois, apresentada em reunião de Directores de Turma, no sentido de se tomar conhecimento de quais as turmas interessadas em aderir ao projecto e, consequentemente, de qual o número de alunos envolvidos. Embora destinada, à partida, aos alunos do 5º e 7º ano, cujos programas incluem conteúdos, objectivos e conceitos a ser explorados no projecto de “História ao Vivo” que se pretendia realizar em Cossourado, a acção contou, também, com a participação de turmas do 6º e 8º ano, totalizando, assim, um universo de doze turmas e cerca de duzentos alunos.

A reconstituição histórica ao vivo decorreu no dia 30 de Maio de 2000, das 10h às 12h30 e das 14h às 16h30. Cerca de oito dezenas e meia de participantes, espalhados pela área principal do povoado, recriaram, com o maior rigor histórico possível e seguindo ao pormenor o que havia sido definido no Plano da Acção, a vida dos homens e mulheres que haviam habitado naquele local.

Figura 18

Fig. 18. Trabalhos de cestaria, moagem de cereais e actividades domésticas no interior de uma cabana.

Apesar do incómodo causado pelo próprio vestuário e pelo ritmo repetitivo que a prática das actividades impunha, mantiveram-se firmes nos seus postos, assumindo com empenho os papéis para os quais se prepararam ao longo do ano lectivo. Transportaram-se a si próprios para um tempo distante e, não menos importante, proporcionaram a cerca de um milhar de alunos do concelho a realização dessa mesma viagem, uma vez que a visita ao povoado foi alargada a todos os estabelecimentos de ensino de Paredes de Coura. Em grupos devidamente orientados e previamente sensibilizados para o efeito, os visitantes seguiram o percurso indicado, percorrendo e observando todos os espaços de intervenção. O povoado, tal como se pretendia, ganhou vida, renasceu —não tanto para uma vida própria mas para uma memória recuperada e até agora apagada pelo tempo.

Figura 19

Fig. 19. Tecelagem em tear vertical, pastorícia e alguns dos muitos visitantes.

A realização de um projecto de “História ao Vivo”, para além de permitir confrontar os conteúdos lectivos com o que é proporcionado viver fora do espaço escolar, permite, de igual forma, conferir ao ensino um carácter essencialmente experimental —um propósito sempre difícil de conseguir em História—, na medida em que o contacto com o real provoca deliberadamente uma experiência.

Ao entrar num espaço concreto —no caso presente um povoado da Idade do Ferro— e ao colocar-se no papel de pessoas de outra época e outra cultura, o aluno é levado a compreender essa realidade distante no tempo e em tudo diferente da sua, e a com ela estabelecer uma afectiva cumplicidade, uma vez que dessa mesma realidade passa então a fazer parte.

O aluno não se limita, desse modo, a aprender mas “ganha consciência de uma situação o que permite o desenvolvimento da sua capacidade de percepção” (Proença, 1989, p. 205) e faz com que aprenda o significado das coisas.

A reconstituição efectuada em Cossourado possibilitou, por um lado, quer aos alunos envolvidos quer à comunidade educativa e público em geral que com a iniciativa tiveram contacto directo, desenvolver capacidades e adquirir conhecimentos de ordem diversa, como os aqui enunciados. Por outro —mas não menos significativo—, permitiu divulgar junto do público escolar e extra-escolar uma estação arqueológica de importância relevante no contexto da ocupação do território concelhio e regional, até há poucos anos ocultada pelo tempo e pela Natureza e agora progressivamente trazida à luz do dia. Se a divulgação tem acompanhado, sob diversas formas, a investigação deste povoado, nenhuma acção se terá revelado tão abrangente e eficaz quanto a aqui abordada. A leitura de um desdobrável pedagógico despertará, assim se espera, o interesse e a curiosidade do aluno; a oportunidade de assumir o papel de um ser humano que, integrado numa comunidade, viveu há cerca de 2500 anos e, ao vivo, poder dá-lo a conhecer a um público específico provocará, certamente, resultados ainda mais positivos. A aprendizagem far-se-á de forma lúdica, a aquisição de conteúdos será mais consistente e os efeitos dos conhecimentos obtidos acompanharão o aluno por muito mais tempo.

A presença no local de órgãos de comunicação social em número significativo permitiu, de igual forma, projectar a iniciativa e o sítio arqueológico a uma escala extra-regional, ampliando a divulgação, atraindo novos públicos e proporcionando condições para a descoberta de novos espaços turísticos e culturais.

É exactamente o que se acredita ter sido conseguido com a experiência de “História ao Vivo” realizada no Povoado Fortificado de Cossourado.

Neste contexto —e sem pretender ser um modelo a seguir no campo da “História ao Vivo”—, este documento visa tão somente prestar um contributo, apresentar-se como um incentivo, um ponto de partida mais para que outras experiências sobre o nosso passado mais distante possam a ter lugar.

5.9. O Núcleo de Arqueologia do Museu Regional de Paredes de Coura

O Museu Regional de Paredes de Coura (Figura 20) foi inaugurado em Outubro de 1997, e constitui, essencialmente, um acto de política autárquica, através do qual se pretendeu criar uma infra-estrutura cultural que, para além de promover, divulgar e conservar valores patrimoniais e culturais junto da população residente, atraísse ao concelho outros visitantes, nomeadamente do distrito de Viana do Castelo e da vizinha Galiza, por parte de quem, de facto, se tem verificado um crescente interesse. É, contudo, o público escolar do concelho que mais visita este espaço.

Figura 20

Fig. 20. Vista aérea das instalações do Museu Regional de Paredes de Coura.

Ao contrário do que regra geral se verifica, este Museu não partiu unicamente da necessidade de expor uma colecção preexistente —apenas existia a de arqueologia—, mas sim de constituir uma colecção,essencialmente etnográfica, para um espaço existente que se pretendia musealizar.

A colecção etnográfica foi reunida a partir de recolhas efectuadas nas diversas freguesias do concelho e retrata as actividades agrícolas típicas desta área do Alto-Minho, designadamente, a lavra, a sementeira e a colheita. Divulga, igualmente, diversos utensílios relacionados com o ciclo do pão, do vinho e os transportes, assim como objectos relativos à vida doméstica e a trabalhos artesanais, como o ciclo do linho.

O Núcleo de Arqueologia do Museu, aberto ao público em Agosto de 2005 (Figura 21), constitui um elemento de elevada importância na política de divulgação do património arqueológico concelhio que veio dar sentido a muito do esforço dos trabalhos de investigação.

Figura 21

Fig. 21. Núcleo de Arqueologia do Museu Regional de Paredes de Coura.

O concelho de Paredes de Coura possui, um pouco por todo o território, um conjunto significativo de vestígios e sítios arqueológicos que testemunham a ocupação e permanência de comunidades humanas desde as épocas mais recuadas da Pré-História até à Idade Média. A exposição retrata essa ocupação, através de alguns dos vestígios da cultura material que o homem produziu ao longo de milhares de anos na bacia superior do rio Coura e que, desde os finais do século XIX, foram recolhidos através de achamentos ocasionais e, sobretudo, mais recentemente, de trabalhos de prospecção e de campanhas de escavação arqueológica.

Dadas as limitações de espaço, uma vez que a sala é relativamente estreita, não foi possível recriar as diversas actividades caracterizadoras da evolução do povoamento na bacia superior do rio Coura, pelo que a exposição foi organizada por grandes épocas, estando todos os vestígios materiais colocados dentro das vitrinas, que correm ao longo das paredes da sala.

A ausência de espólio de algumas épocas, uma vez que algumas das peças mais emblemáticas do concelho se encontram em outros Museus ou em locais de onde não podem ser retiradas (caso dos miliários ou da ponte romano-medieval de Rubiães), houve a necessidade de se recorrer à construção de réplicas e de maquetas (Figura 22).

Figura 22

Fig. 22. Réplicas e maquetas patentes no Museu Regional de Paredes de Coura.

Entre outras publicações já editadas mas ainda não colocadas a público, como a Carta Arqueológica concelhia, foi elaborado um catálogo ilustrativo do que se mostra na sala, para que os visitantes possam levar consigo alguma informação, e mais tarde melhor apreender a mensagem ali presente. Futuramente outro tipo de informação e de actividades irão renovar e dar vida à sala, cuja concepção, orientação científica e montagem da exposição foi da responsabilidade dos signatários.

Pelos propósitos que presidiram à sua concepção, o Núcleo de Arqueologia é, pois, um convite ao conhecimento do passado mais distante da comunidade de Paredes de Coura e, simultaneamente, um desafio às gerações mais novas para que se entusiasmem e deixem envolver pela aventura da sua descoberta. A aceitação de um e de outro —que, convictamente, se espera venha a suceder— será o reconhecimento e a justificação plena do trabalho realizado.

6. Considerações Finais

Do que aqui foi referido, ressalta, para terminar, a constatação de que a aplicação de um projecto deste género num domínio cultural até há pouco tempo praticamente afastado dos financiamentos estatais e comunitários possibilitou a realização de um conjunto de acções concretas que, de outra forma, não passariam, certamente, do campo das intenções. Fundamentalmente, permitiu chamar a atenção da comunidade local e regional para a existência de um património de características próprias, obrigatoriamente distinto do demais, que urge a todo o custo preservar.

O interesse da população local e do turista em geral cresceu significativamente. Importa, por isso, dar continuidade a todo este processo de estudo e valorização, de modo que o povoado se converta cada vez mais num espaço de fruição o mais abrangente possível. Para isso muito irá contribuir, assim o esperamos, a recente adesão de Cossourado à Rede de Castros que estruturará a candidatura à classificação pela UNESCO.

Notas

[1] O projecto inicial foi elaborado pelo Dr. Francisco Ortiz Risco, a quem agradecemos, tendo sido, por diversas razões, posteriormente alterado pelos signatários e pelo Dr. Nuno Farinhote, responsável pela execução do projecto de conservação e restauro.

[2] Uma das soluções equacionadas foi a de dispor sobre as superfícies dos muros —prévias à fiada de protecção— cordões ou uma malha larga de fibra de vidro de 5 mm de diâmetro, fixos com resina epoxy. Uma vez disposta a fiada de protecção, cortar-se-iam segundo o plano do paramento, visualizando-se sobre este como sequência discreta de elementos pontuais. O conjunto actuaria como uma trama, incrementando a resistência e a estabilidade geral dos muros sem distorcer a informação, e cumprindo com o factor de reversibilidade com vista a trabalhos futuros.

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