1. Introdução
No Alentejo Central e, em particular, nos arredores de Évora, existe um importante acervo de monumentos megalíticos que constituem, em diversos aspectos, um dos conjuntos mais peculiares, à escala peninsular e mesmo europeia.
Destaca-se, antes de mais, a antiguidade dos grandes recintos megalíticos eborenses, atribuíveis ao Neolítico antigo (5500-4500 a.C.); trata-se, provavelmente, dos mais antigos monumentos europeus, a par dos menires da Bretanha e do Algarve.
Os monumentos megalíticos alentejanos, para além de um elevado valor sócio-cultural, beneficiam ainda de contextos paisagísticos muito bem conservados e muito característicos.
Aparte os recintos megalíticos, existe ainda um grande número de estruturas de tipo dolménico —cerca de 800, só no distrito de Évora— com uma grande diversidade, em termos de dimensões, formas, matérias-primas e conteúdos.
Convém aqui recordar que a Anta Grande do Zambujeiro (Fig. 1) é o dólmen mais alto do mundo, e que, só por si, justificava, da parte das autoridades competentes, um esforço de valorização diferenciado. Como sabemos, muitos dólmenes, um pouco por toda a Europa, beneficiaram de acções de restauro e musealização, mesmo quando se trata apenas de monumentos de relevância mediana.

Fig. 1. Anta Grande do Zambujeiro (Évora).
Claro que, para os megalitistas, que são, naturalmente, cidadãos suspeitos nesta matéria, a importância relativa dos monumentos eborenses é indiscutível; infelizmente, porém, para os não especialistas, esta noção não é ainda evidente.
Na verdade, sendo o megalitismo um fenómeno quase planetário, e sendo impossível recuperar e valorizar todos os monumentos que se conservaram até aos nossos dias, torna-se fundamental estabelecer hierarquias.
2. Megalitismo alentejano: breve história da musealização
Desde que, nos anos sessenta do século passado, foram descobertos alguns dos monumentos mais excepcionais do distrito de Évora (Almendres, Anta Grande do Zambujeiro, Xarez…), foi-se esboçando a ideia de que seria importante musealizá-los.
Na prática, infelizmente, para além de algumas tentativas mais ou menos bem sucedidas de restauro estrutural desses monumentos, e de alguns esforços de divulgação dos mesmos, para o grande público, a ideia nunca foi cabalmente materializada.
Em todo o caso, na década seguinte, apareceram as primeiras sinaléticas e foi elaborado o primeiro Roteiro de tipo turístico-cultural, centrado no tema do megalitismo alentejano (Gonçalves, 1975).
Nos quarenta anos que se seguiram, foram editados novos roteiros, com diversas filosofias, alguns deles apoiados por sinaléticas mais apelativas, mas genericamente insuficientes. Durante este período, foram igualmente efectuadas algumas escavações de investigação que, no que diz respeito aos menires, incluíram quase sempre operações de restauro.
Em paralelo, os principais acessos foram melhorados tendo sido mesmo implantadas algumas estruturas, mínimas, de acolhimento.
Estas acções, articuladas com o crescimento exponencial da procura turística —potenciada pela classificação, pela UNESCO, da cidade de Évora como Património da Humanidade— fizeram com que, hoje em dia, exista uma enorme disparidade entre a (fraca) qualidade das condições de acolhimento, altamente terceiro-mundistas, por um lado, e a quantidade de visitantes, por outro.
Isto, como atrás se referiu, com monumentos de excepcional qualidade.
3. Que futuro para este passado?
Em termos gerais, existe algum consenso, entre os principais interessados, no que diz respeito às prioridades.
No caso do recinto dos Almendres, é urgente reorganizar o sistema de acesso, afastando o parque de estacionamento para uma distância razoável, restituindo assim, alguma dignidade mínima ao monumento; em paralelo, importa resolver urgentemente os problemas da erosão do solo (que resultam da elevada densidade de visitantes), na área de recinto (Fig. 2).

Fig. 2. Recinto megalítico dos Almendres (Évora).
Feito isto, que todos consideram fundamental, torna-se relativamente pacífica a ideia de que um monumento com esta importância deveria beneficiar de um arranjo paisagístico integrado, que inclua, naturalmente, as estruturas básicas de acolhimento.
Quanto à Anta Grande do Zambujeiro, a situação é, infelizmente, mais complexa: de facto, a montante das operações de musealização propriamente ditas, é urgentíssimo resolver os problemas de conservação das estruturas e definir uma estratégia de restauro do monumento (Figs. 3 e 4).

Fig. 3. Anta Grande do Zambujeiro (Évora).

Fig. 4. Anta Grande do Zambujeiro (Évora).
Para além das soluções casuísticas que se venham a adoptar para cada um destes monumentos-âncora, é natural que, pelas mais variadas razões, se valorizem e musealizem outros sítios e conjuntos.
Convém recordar que, já há alguns anos, a instituição da tutela criou e tem mantido a funcionar o Circuito Megalítico de Elvas que integra um conjunto medianamente interessante de sítios e monumentos de vários tipos.
Está também em curso um projecto de musealização integrada de outro conjunto de megálitos, no concelho de Mora, por iniciativa da respectiva Câmara Municipal; alguns dos monumentos deste circuito constituem casos únicos, no contexto regional, como acontece, por exemplo, com a Anta-Capela de Pavia (Fig. 5) ou com o Alinhamento da Têra (Fig. 6).

Fig. 5. Anta-Capela de S. Dionísio (Pavia, Mora).

Fig. 6. Alinhamento do Monte da Têra (Pavia, Mora).
Igualmente em fase de concretização, encontra-se o Roteiro Megalítico das Murteiras, por iniciativa da Fundação Eugénio de Almeida; este roteiro inclui igualmente monumentos e sítios notáveis, nomeadamente o povoado neolítico das Murteiras (de elevado interesse paisagístico), as sepulturas proto-megalíticas da Hortinha (uma delas reutilizada na Idade do Ferro) e uma pedreira megalítica.
A concretização destes projectos vai, esperamos, melhorar globalmente o panorama regional, no que diz respeito à valorização e musealização do património megalítico regional.
Numa perspectiva mais integrada, ainda no campo museológico, foi recentemente inaugurado, por iniciativa da Câmara Municipal de Évora, um Centro Interpretativo do Megalitismo eborense. Trata-se de uma estrutura, vocacionada para a vertente turístico-cultural, mas com uma componente pedagógica dirigida à sensibilização do público local, com destaque para as escolas.
A exposição, baseada em reconstituições (sobretudo maquetes) tem como objectivo principal a construção de um discurso interpretativo sobre o megalitismo regional (Fig. 7), no quadro do megalitismo da Europa atlântica, por um lado, e no contexto das sociedades que o produziram, por outro. São igualmente destacados aspectos específicos, como, por exemplo, a orientação astronómica dos monumentos ou o tema das placas de xisto que constitui uma das especificidades mais notáveis do megalitismo regional.

Fig. 7. Pormenor da maqueta do Centro Interpretativo Megalithica Ebora.
4. Um Parque do Megalitismo
Os Parques temáticos centrados em temas arqueológicos, são hoje uma realidade relativamente corrente; porém, em Portugal, não existe ainda nenhuma experiência deste tipo, pese embora o sucesso de alguns casos recentes, noutros países europeus (e não só).
O caso que mais se aproxima deste conceito é o do Parque do Côa, cujo Museu, previsto já há alguns anos, se encontra actualmente em preparação.
Em França (http://cam.daval.free.fr/parcs.htm), gostaríamos de referir, de forma necessariamente breve, o Parque do Musée des Tumulus de Bougon, centrado precisamente na temática do megalitismo, e o Parc Pyrénéen de l’Art Préhistorique, em Tarascon-sur-Ariège, centrado na arte rupestre paleolítica; ambos foram inaugurados há cerca de 15 anos (Fig. 8).

Fig. 8. Parque de Arte Pré-Histórica (França).
Num e noutro caso, existe uma relação umbilical entre os parques e conjuntos arqueológicos excepcionais: os dólmenes de Bougon e as grutas pirenaicas —sobretudo as grutas “gémeas” de Niaux (Figs. 9 e 10) e La Vache (Fig. 11), mas também a de Bedeilhac (Fig. 12).

Fig. 9. Gruta de Niaux (França).

Fig. 10.Vista da actual entrada da Gruta de Niaux (França).

Fig. 11. Gruta de La Vache (França).

Fig. 12. Gruta de Bédeilhac (França).
Em termos físicos, ambos comportam estruturas museológicas modernas, alojadas em edifícios concebidos expressamente para o efeito, inseridos em espaços amplos (com áreas na ordem dos 15 ha). De facto, os espaços exteriores prolongam, em articulação com uma série de actividades, os discursos museológicos, mais convencionais, organizados no interior dos edifícios (Figs. 13 e 14).

Fig. 13. Ilustração de acampamento pré-histórico. Parque de Arte Pré-Histórica (França).

Fig. 14. Ilustração de uma escavação. Parque de Arte Pré-Histórica (França).
Na verdade, existe, nos dois casos, uma forte articulação e valorização dos contextos paisagísticos em que os respectivos temas arqueológicos se inserem.
As reconstituições são, naturalmente, um dos elementos essenciais destes parques: destinam-se, por definição, a públicos não especializados e, de forma muito particular, a públicos juvenis. Neste último aspecto, um dos ingredientes mais eficazes são os ateliers, abertos à participação dos visitantes, em que se reconstituem actividades relacionadas com a temática de cada parque: construção de monumentos megalíticos, tiro com armas pré-históricas (Figs. 15 e 16), pintura rupestre, talhe de pedra (Fig. 17), entre outros (Figs. 18 e 19).

Fig. 15. Atelier experimental. Parque de Arte Pré-Histórica (França).

Fig. 16. Atelier experimental. Parque de Arte Pré-Histórica (França).

Fig. 17. Atelier experimental. Parque de Arte Pré-Histórica (França).

Fig. 18. Atelier experimental. Parque de Arte Pré-Histórica (França).

Fig. 19. Réplicas. Parque de Arte Pré-Histórica (França).
O megalitismo de Évora dispõe, à partida, de todos os ingredientes necessários à implementação de um parque temático:
- Monumentos e sítios de primeira ordem, no âmbito de um tema com forte procura internacional, em termos de turismo cultural;
- Monumentos bem conservados, integrados em paisagens naturais de grande qualidade;
- Évora constitui um destino turístico consolidado, com uma forte expectativa de crescimento.
Note-se, finalmente, que um parque temático deste tipo funciona como complemento da visita aos sítios arqueológicos, enriquecendo roteiros que, para o grande público, apesar da sua importância científica intrínseca, se revelam muitas vezes difíceis de apreender.
Bibliografia
GONÇALVES, J. P. (1975) – Roteiro de alguns megálitos da região de Évora. A Cidade de Évora. Évora. 58, p. 3-23.
índice deste volume
- Capa
PDF - Índice
HTML | PDF - Editorial
HTML | PDF - A divulgação do Conhecimento em Arqueologia: reflexões em torno...
A. C. Valera
HTML | PDF - Arqueologia; Divulgação; Universidade: palavras-chave para um novo...
M. Diniz
HTML | PDF - Valorização de sítios arqueológicos
O. Matos
HTML | PDF - Parque Arqueológico do Vale do Côa: uma paisagem cultural Património...
J. P. A. Francisco
HTML | PDF - Parque do Megalitismo de Évora; uma utopia alentejana
M. Calado e L. Rocha
HTML | PDF - A valorização, rentabilização e difusão como culminar do processo de gestão...
M. F. Silva e C. A. M. G. Silva
HTML | PDF - Ilustração em Arqueologia: um apoio à Museologia
L. J. Gonçalves e R. Castro
HTML | PDF - Arqueologia Pública no Brasil e as novas fronteiras
P. P. A. Funari, N. V. Oliveira e E. Tamanini
HTML | PDF - Gestão da Arqueologia: mudar o paradigma
L. Oosterbeek
HTML | PDF - Proteger apesar do IGESPAR, IP.: a Arqueologia Portuguesa num instituto...
M. Almeida
HTML | PDF - Arqueologia: onde fica a raíz do poder?
J. Pereira
HTML | PDF - Avaliação de impactes e Património Cultural: que papel para o arqueólogo...
M. J. Almeida
HTML | PDF - Talhe da pedra na Pré-História Recente de Portugal: 1. Sugestões teóricas e...
A. F. Carvalho
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