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O talhe da pedra na Pré-História recente de Portugal: 1. Sugestões teóricas e metodológicas para o seu estudo

antónio faustino de carvalho, Universidade do Algarve — Faculdade de Ciências Humanas e Sociais
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Praxis Archaeologica 3 (2008), p. 167-181
1. Introdução

O presente texto surge na sequência do workshop organizado em Faro no mês de Maio de 2005 pela APA, em colaboração com a Universidade do Algarve, intitulado Estudos Integrados de Indústrias Líticas. Este workshop visou fornecer uma perspectivação alargada do estudo das indústrias líticas, pelo que, contando com a participação de diversos especialistas, foi abordado um leque de temas distribuído entre o que se poderiam chamar os dois extremos do percurso analítico: ou seja, desde o aprovisionamento das matérias-primas líticas à análise traceológica dos utensílios retocados, passando pelo talhe experimental e, naturalmente, pela apresentação das principais características do talhe da pedra, do Paleolítico ao final da Pré-História no actual território português.

A iniciativa de levar a efeito um workshop sobre aquele tema teve objectivos muito claros, e que se encontravam enunciados, desde logo, no preâmbulo do respectivo Programa:

“[o] estudo das indústrias líticas não constitui uma matéria de muito fácil abordagem para a maior parte dos arqueólogos que fazem da 'Arqueologia generalista' a sua profissão, tal como o não é, inclusive, para outros profissionais deste domínio científico que, devido às vicissitudes próprias do seu percurso pessoal, não quiseram ou não precisaram de dedicar o seu tempo e o seu esforço ao desenvolvimento de competências neste tema”.

Com efeito, a análise do talhe da pedra é tradicionalmente relegada para os estudos paleolíticos e mesolíticos, o que, por consequência, lhe tem conferido o estatuto de parente pobre da investigação dedicada às realidades da Pré-História mais recente. Daí que esta classe artefactual não tenha vindo a ser ensinada nas universidades portuguesas com a mesma profundidade com que o é, por exemplo, a cerâmica ou a metalurgia; aliás, muitas vezes não faz sequer parte dos planos curriculares das licenciaturas em Arqueologia, dado que quem lecciona as disciplinas introdutórias aos estudos artefactuais também não possui normalmente formação teórica nem prática neste campo. Por esta razão, a tendência será a perpetuação das insuficiências referidas no Programa do workshop. Esta situação, não lhe sendo de maneira alguma exclusiva, é no entanto ainda hoje muito saliente em Portugal. Daí também que a ausência de bibliografia de cariz teórico-metodológico em língua portuguesa —com excepção de alguns casos muito pontuais (Almeida et al., 2003; Bicho, 2006)— seja apenas o reflexo natural daquelas limitações. O facto de as pouquíssimas obras de referência que circulam em Portugal serem exclusivamente em línguas estrangeiras só reforça o carácter quase exotérico de que o estudo do talhe da pedra se parece revestir aos olhos dos não “iniciados”...

As consequências negativas sobre o estado da investigação, a que se fez alusão, colocam-se desde lodo a dois níveis, ou etapas, do trabalho arqueológico. Em primeiro lugar, durante a própria escavação. Ainda não há muitos anos, era comum —e, nalguns casos, lamentavelmente, ainda o é hoje— a recolha não sistemática de restos líticos em contextos da Pré-História recente: seja porque se procedia a uma triagem das peças dando preferência aos utensílios formais fabricados em sílex, seja porque os métodos de escavação não contemplavam o recurso a técnicas que permitissem a identificação e recolha de peças de menores dimensões. Estas opções metodológicas tiveram como resultado a recolha de conjuntos líticos profundamente truncados da sua integridade original, o que significa que o seu estudo será sempre, seja qual for a circunstância, desprovido de qualquer significado, por muito interessantes que possam ser as peças singulares recolhidas nesses trabalhos. Em segundo lugar, outra consequência negativa das limitações referidas é a existência de erros de classificação tecnológica e tipológica —por vezes grosseiros— que se podem constatar na bibliografia, ou ainda a utilização equivocada de termos e conceitos, o que denota a má preparação da generalidade dos pré-historiadores portugueses a este nível.

Em rigor, porém, deve também salientar-se a existência de progressos recentes muito notórios no estudo do talhe da pedra, sobretudo ao nível dos investigadores mais jovens. Esta tendência recente, que resulta do acentuado crescimento do número de arqueólogos em actividade nas últimas duas décadas, é um factor que conduziu, como é natural, à multiplicação, ainda que não na mesma proporção, de paleoliticistas —que têm na pedra lascada a sua principal base empírica de dados— e de alguns outros pré-historiadores com formação concreta nesta disciplina.

Perante o exposto, o objectivo do presente texto é fornecer diversos elementos, de forma necessariamente abreviada, que se possam constituir —tal como indicado em título— como sugestões introdutórias ao estudo do talhe da pedra do final da Pré-História. Assim, procurar-se-á fornecer um conjunto de apontamentos teóricos da disciplina, apontando alguns aspectos pertinentes do estado da questão na viragem do milénio e alguns conceitos que importa reter, assim como algumas indicações metodológicas, de cariz eminentemente prático, acompanhadas da terminologia e definições usadas na classificação tecnotipológica de artefactos em pedra lascada.

2. Breve enquadramento teórico

A Arqueologia do século XIX e inícios do XX respondia a um objectivo considerado fundamental: a reconstituição de sequências cronoestratigráficas. Assim, a investigação focalizou o seu interesse nos testemunhos cujo carácter intencional (logo, cultural) era mais evidente e acessível através de observação directa. No caso das indústrias líticas, as atenções recaíram portanto na classificação de utensílios retocados e na busca de “fósseis directores”. Esta incidência nas peças retocadas atingirá o seu apogeu no terceiro quartel do século XX com as tipologias descritivas ou sintéticas (Julien, 1992), as quais se baseiam num princípio simples: o estabelecimento, para cada época e região geográfica determinadas, de uma “lista-tipo”, ou seja, de um inventário completo das utensilagens retocadas. Nestas tipologias, as propostas de D. Sonneville-Bordes e J. Perrot (1954-56) para o Paleolítico Superior e de F. Bordes (1961) para o Paleolítico Inferior e Médio foram rapidamente alargadas a outros períodos e regiões, dada a facilidade de comparação que permitem estabelecer entre conjuntos líticos distintos após o cálculo das frequências relativas de cada tipo e da sua representação em gráficos cumulativos. Veja-se, como exemplo, o conjunto amplo de listas tipológicas reunidas por Camps (1979) no seu manual de investigação pré-histórica, a que se poderiam adicionar muitas outras criadas posteriormente para realidades meso-neolíticas como, por exemplo, as de Juan-Cabanilles (1984) para o Neolítico cardial valenciano ou de Binder (1987) para o Castelnovense e Cardial da Provença.

No entanto, aqueles procedimentos analíticos resumem-se à descrição e classificação apenas de uma pequena fracção dos testemunhos. Porém, nos últimos trinta anos ocorre o que se poderia apelidar de uma verdadeira “revolução coperniciana” no estudo do talhe da pedra: trata-se do aparecimento da perspectiva tecnológica, enquadrada do ponto de vista teórico pela noção de “cadeia operatória”. Com efeito, a vulgarização da perspectiva sistémica em Arqueologia e as reflexões de A. Leroi-Gourhan sobre a Técnica sistematizadas na sua obra Évolution et Techniques —traduzida para português há já quase um quarto de século (Leroi-Gourhan, 1984a; 1984b)— foram factores que, embora com origens teóricas distintas (a Etnologia da escola francesa e a Arqueologia processual anglo-saxónica, respectivamente), se revelaram fundamentais para essa transformação teórica operada no campo da análise lítica. A convergência destas duas perspectivas permitiu pressupor a existência de “sistemas técnicos de produção lítica” —para utilizar a expressão de Geneste (1991)— cujos princípios teóricos e regras de funcionamento foram definidos partindo do contributo conjugado de várias disciplinas e técnicas específicas, entre as quais se conta a etnoarqueologia, o talhe experimental, a análise espacial, a análise traceológica e a vulgarização dos ensaios de remontagem.

É assumido que os sistemas técnicos são determinados por três elementos fundamentais que condicionarão qualquer realização técnica (Geneste, 1991):

  1. Uma estrutura geral, isto é, o próprio contexto antropológico em que se integram (ideologia, organização política e social, tradição tecnológica, etc.);
  2. Um princípio de funcionamento, que reúne os métodos, técnicas e concepções mentais que presidem à realização técnica; e
  3. Uma finalidade, ou seja, a produção dos artefactos desejados, os quais podem constituir, em última análise, uma resposta adaptativa particular.

O entendimento pleno do sistema técnico terá de passar, então, não só pela caracterização da estrutura geral que lhe subjaz —ou seja, as características e a articulação entre os diversos subsistemas componentes do sistema sociocultural— como também da sua finalidade. No entanto, o nível de abordagem mais imediato e elementar ao sistema técnico de produção lítica é a determinação dos seus princípios de funcionamento, os quais são abordáveis através de uma ferramenta heurística própria: a noção de “cadeia operatória”.

A utilização deste conceito permite identificar, no seio dos conjuntos líticos, as estratégias de aquisição, fabrico e utilização dos objectos. Trata-se, em suma, de reconstituir e de ordenar o conjunto de acções aplicadas sobre um bloco de matéria-prima, desde a sua selecção até ao abandono definitivo dos elementos dele provenientes (resíduos, produtos de debitagem, núcleos e os próprios utensílios).

Como a ordem temporal daquelas acções pode ser definida isolando os seus diversos momentos, torna-se possível reconhecer os espaços onde se encontram os vestígios materiais respeitantes a cada um desses momentos. O fraccionamento espacial da cadeia operatória assim identificado permite o reconhecimento de espaços individuais (áreas de trabalho) e de espaços mais amplos, explorados pela própria comunidade (territórios), o que permite ultrapassar a utilização da pedra lascada unicamente como elemento de diagnóstico cronológico-cultural (através das tipologias) para atingir inferências de ordem paleoeconómica e paleoetnográfica.

Refira-se que, no contexto teórico da Arqueologia processual, o estudo das cadeias operatórias líticas tem sido um dos recursos para a análise da complexidade social, designadamente através da reconstituição do seu fraccionamento espacial (oficinas de talhe especializadas no fabrico de determinados objectos e seus locais de abandono), da identificação de produções normalizadas, da análise de circuitos de trocas e/ou de comércio, e da reconstituição de sequências de talhe específicas de objectos de prestígio. Estas abordagens particulares têm visado, em suma, a identificação de artesãos especialistas e, por consequência, de sociedades pré-históricas hierarquizadas. O advento das correntes de pensamento ditas pós-processuais tem-se feito sentir nos estudos líticos por enquanto apenas ao nível do simbolismo e dos rituais associáveis a determinados objectos ou tipos de rochas particulares, considerados de excepção. Segundo Odell (2001), este tipo de abordagem denota ainda todavia um forte peso das analogias etnográficas, retiradas principalmente de estudos sobre os aborígenes australianos.

O conceito de cadeia operatória tem-se prestado, contudo, a problemas definicionais que decorrem, em primeiro lugar, da diversa perspectivação teórica que lhe é atribuída, por um lado, pela Arqueologia processual anglo-saxónica e, por outro, pela Arqueologia francesa (para uma explicitação destas diferenças, ver Sellet, 1993). O principal objectivo da primeira tem sido o estudo da organização dos sistemas líticos, por exemplo ao nível das estratégias de planificação tecnológica e económica, as quais tiveram a sua mais expressiva definição no estudo já clássico de Binford (1979) sobre o que o autor designou por “tecnologias curadas”; em França, onde o termo “chaîne opératoire” nasceu, o estudo das cadeias operatórias tem procurado atingir sobretudo o nível conceptual e as implicações paleossociais que elas encerram (identificação de “métodos” e “conceitos” de talhe, busca de tradições tecnológicas, determinação dos níveis de tecnicidade dos indivíduos e de aspectos neurofisiológicos e cognitivos, etc.). Interessantemente, porém, nota-se neste início de século uma certa convergência entre ambas as perspectivas, de que é eloquente testemunho a edição de Março do corrente ano do Journal of Archaeological Method and Theory (volume 15, n.º 1), integralmente consignado a questões de habilidade e de aprendizagem artesanal na produção lítica, sem a colaboração de qualquer autor francófono...

Outro problema definicional resulta da própria realidade empírica. Numa situação ideal, dever-se-ia aceder à reconstituição de todos os gestos aplicados a todos os nódulos de matéria-prima que entrem na composição dos conjuntos líticos estudados, procedimento que poderia passar pela realização da remontagem física da totalidade das peças recuperadas. Porém, essa situação ideal é inatingível por diversas razões: por questões de ordem institucional ou social (os custos que a manutenção de laboratórios e de pessoal técnico orientado para este tipo de estudos acarreta) e, em primeira instância, por questões que se prendem com as limitações inerentes à natureza e diversidade do próprio registo arqueológico. Isto é, os conjuntos líticos recuperados em escavação muito raramente correspondem à totalidade das peças originalmente abandonadas, seja por constrangimentos pós-deposicionais, seja porque não é norma a escavação integral do contexto arqueológico; por outro lado ainda, em situações de palimpsesto arqueológico —como o são, em maior ou menor medida, a quase totalidade dos contextos— é também praticamente inviável proceder a ensaios de remontagem de forma sistemática, mas apenas, quando muito, a ensaios pontuais e remontagens parciais. Por estas razões, são raros os casos de aplicação do método das remontagens líticas com elevado grau de sucesso. Excelentes exemplos na investigação portuguesa de ensaios de remontagem com importantes resultados para o conhecimento, não só dos processos de talhe da pedra, como também da organização espacial interna dos respectivos contextos arqueológicos —ou seja, na interpretação paleoetnográfica dos mesmos—, são os casos das ocupações gravettenses da Lapa do Anecrial (Zilhão, 1997; Almeida et al., 2007) e do Abrigo do Lagar Velho (Almeida, 2003), no Maciço Calcário Estremenho, ou das ocupações epipaleolíticas da Barca do Xerez de Baixo (Araújo e Almeida, 2007), no vale do Guadiana.

Além das limitações de índole mais prática, têm-se colocado também problemas relacionados com as escalas de abordagem do conceito, pelo que a expressão “cadeia operatória” tem sido mais correntemente utilizada com dois principais significados distintos:

  1. Como referência à totalidade das acções técnicas documentadas num dado conjunto lítico (significado amplo), ao qual, por exemplo, Zilhão (1997) atribui a designação de “economia da pedra”; ou
  2. Como referência às acções técnicas que visam a produção em particular de um determinado tipo de suportes ou de utensílios retocados (significado restrito).

No sentido de conseguir definições mais circunscritas, estruturadas ao longo de uma hierarquia própria que organize e determine os respectivos níveis de aplicabilidade, diversos autores —principalmente francófonos, mas não só (por exemplo, Karlin, 1991; Karlin e David, 1999; Geneste, 1991; Julien, 1992; Pelegrin, 1995; Ploux, 1999; Bleed, 2001)— têm dissertado sobre a questão e utilizado as expressões que se alinham de seguida. Assim:

  • Pode adoptar-se para o termo “cadeia operatória” o sentido que lhe é atribuído por Julien, que é o “[...] de reconstituir e ordenar o conjunto de acontecimentos que afectaram um bloco de matéria-prima desde a sua selecção até ao abandono definitivo dos elementos dele provenientes” (1992, p. 174; original francês). Este pode ser considerado o primeiro e mais elementar nível de abordagem.
  • Como resulta frequentemente impossível, pelas razões acima aludidas, o isolamento de peças resultantes da exploração de nódulos individuais, a expressão “cadeia operatória”, tal como definida, deveria quando muito ser empregue no plural, pois um conjunto lítico apresenta sempre a forte possibilidade de coexistência de cadeias operatórias distintas. É em situações deste tipo que se procede a uma “remontagem mental” —no sentido que foi proposto na década de 1990 por vários autores— porque resulta impossível discernir, num grupo concreto de materiais, as diferentes cadeias operatórias que se vislumbram mas que não se definem rigorosamente devido à baixa resolução permitida por esse grupo de materiais. É a um quadro deste tipo (que se pode designar por nível intermédio de abordagem) que se referirá o termo de “economia da pedra” atrás referido, ou seja, a articulação entre a análise da gestão das matérias-primas, a economia de debitagem e a classificação tipológica da utensilagem.
  • A reconstituição do sistema tecnológico de produção lítica pode ser considerado o último dos níveis de abordagem a que se tem vindo a fazer referência. Trata-se de sistematizar, a uma determinada escala geográfica e cronológica, os resultados das comparações empreendidas entre os conjuntos líticos provenientes de diversos contextos arqueológicos. Neste âmbito é muito útil a seguinte proposta:

  • “[n]ós propomos reservar o termo processo para a construção abstracta, realizada a partir de observações convergentes completadas por interpretações e eventualmente suportadas por verificações experimentais, feitas sobre várias cadeias operatórias da mesma natureza. Cada cadeia operatória traduz o desenrolar do talhe de um único nódulo de sílex, trabalho realizado por um artesão pré-histórico. Um processo técnico, assim elaborado, pode ser traduzido por um modelo de cadeia operatória que apelidaremos [...] de esquema técnico porque este é a imagem através da qual nós, pré-historiadores, representamos um conceito intelectual” (Karlin, 1991, p. 111; original francês).

    Processos técnicos são pois, em suma, a justaposição de cadeias operatórias individuais que respondem a objectivos semelhantes e que se podem traduzir num esquema técnico modelo. Estes processos integram, deste modo, um nível conceptual abstracto e não podem ser compreendidos sem referência aos conhecimentos tecnológicos do grupo humano sob estudo, pelo que equivalerão à noção de método (e daí a importância da distinção teórica entre, por um lado, “métodos de talhe” e, por outro, “técnicas de talhe”), os quais devem ser entendidos, em última análise, como o resultado da tradição tecnológica dessa comunidade.

3. Terminologia básica e metodologia analítica

Como se depreende do funcionamento de uma cadeia operatória, o talhe resulta, desde o início do processo ao abandono definitivo dos objectos, na produção de resíduos característicos pertencentes a —e que testemunham— cada uma das fases que a compõem. Esses resíduos agrupam-se, por cada tipo de rocha, em várias categorias de artefactos empiricamente determináveis (núcleos, lâminas, utensílios, etc.; ver adiante) cuja triagem e classificação elementar permite, desde logo, uma avaliação e caracterização preliminar do conjunto lítico em questão.

A partir desta avaliação e caracterização preliminares podem —ou devem— seguir-se dois patamares sucessivos de classificação e de inferência. O primeiro será a classificação detalhada dos atributos específicos pertinentes de cada categoria de artefactos (por exemplo, morfologias particulares de núcleos, tipologias de talões de lâminas, tipos de retoque de utensilagens geométricas, etc.). Estes atributos resultantes de talhe intencional são interpretados, ou “lidos”, no contexto de uma operação lógica que consiste na sua confrontação com as observações que têm vindo a ser produzidas através do talhe experimental. Numa perspectiva actualista, estes conhecimentos experimentais são admitidos como sendo equivalentes à realidade arqueológica e, logo, utilizáveis na sua interpretação. Entre outros, são exemplos deste exercício a determinação das técnicas de talhe, a identificação de resíduos particulares, ou mesmo o reconhecimento de acidentes de talhe.

Para o segundo patamar dedutivo, parte-se da presunção segundo a qual a análise de forma conjugada e articulada daquelas categorias de artefactos e respectivos atributos permitirá a identificação das cadeias operatórias presentes e, por inferência e comparação com outros contextos assim estudados, a reconstituição dos processos ou esquemas técnicos empregues no talhe da pedra no período cronológico considerado. Trata-se, em suma, do exercício mencionado por Karlin (1991), anteriormente citada. Um aspecto essencial na organização e exposição destas inferências é, como referido, a boa conjugação e articulação entre as diversas observações, para que estas se tornem inteligíveis no próprio quadro da dinâmica e da complexidade de gestos e operações inerentes aos processos de talhe da pedra em estudo. Dito de outro modo, há que evitar descrições exaustivas de peças e de atributos à maneira de catálogo ou de inventário de museu —que, portanto, ninguém lê— porque não avançam qualquer interpretação inteligível do conjunto lítico, prestando assim um mau serviço à disciplina.

Portanto, a abordagem mais comummente empregue assenta, assim, nas chamadas “remontagens mentais”. Para este propósito, pode partir-se do preenchimento de uma matriz de triagem —que distribui os artefactos por grandes grupos ou categorias tecnológicas— a qual permite observar, logo no início do estudo, o tipo e a variação quantitativa (em número e peso) das diferentes matérias-primas utilizadas e a representação absoluta e relativa daquelas categorias. Veja-se, a título de exemplo, a tabela para preenchimento manual reproduzida na Figura 1, a qual pode, como é óbvio, ser adaptada a folhas de cálculo de bases de dados informáticas. Como se pode observar, a própria estruturação subjacente à matriz de triagem procura ordenar as diversas categorias tecnológicas de acordo com as principais etapas teóricas que compõem as cadeias operatórias das diversas rochas objecto de talhe. Os artefactos componentes de cada uma daquelas categorias são depois analisados a partir dos seus atributos considerados significativos —tanto métricos como qualitativos— através do preenchimento de matrizes próprias e uniformizadas, as quais devem ser construídas em função dos objectivos concretos do estudo. Exemplos desenvolvidos de critérios de análise tecnológica de artefactos de diversos tipos (núcleos, lâminas e lamelas, utensílios geométricos, etc.), para realidades arqueológicas portuguesas, podem ser encontrados em Zilhão (1997) ou Carvalho (1998). Uma abordagem integral deste tipo —a única que, a par das remontagens físicas, permite aceder ao efectivo conhecimento do talhe da pedra— obriga, portanto, a que se tome em consideração a totalidade dos artefactos líticos, incluindo mesmo os resíduos de talhe incaracterísticos. Daí a necessidade imperiosa, apontada no início do presente texto, de se proceder à recolha sistemática dos artefactos líticos durante a escavação arqueológica.

Figura 1

Fig. 1. Exemplo de tabela ou matriz de triagem de artefactos líticos lascados, estruturada de acordo com grandes categorias tecnológicas (nas linhas horizontais) e respectivos tipos de rochas (nas colunas verticais).

Como se pode verificar, a matriz da Figura 1 emprega uma terminologia própria, de inspiração bordesiana (isto é, elaborada e proposta por F. Bordes), que compreende cinco grandes categorias tecnológicas fundamentais, e que importa definir nos seus traços essenciais:

  1. Material de debitagem;
  2. Núcleos;
  3. Material de preparação e de reavivamento de núcleos;
  4. Material residual;
  5. Utensílios retocados.

Refira-se que esta terminologia é retirada de um léxico acompanhado de ilustrações publicado há quase três décadas no já clássico volume I da obra Préhistoire de la Pierre Taillée, redigido por Tixier e colaboradores (1980, p. 71-106) e intitulado “terminologie et technologie”. Este léxico viria depois a ser novamente publicado no volume IV da mesma colecção, “technologie de la pierre taillée” (Inizan et al., 1995, p. 133-163), mas com novas entradas e seguido de um vocabulário multilingue com uma tradução portuguesa, da autoria de L. Raposo. Ambas as obras citadas —que, refira-se, se constituem como autênticos manuais introdutórios ao estudo do talhe da pedra— incluem também figuras com os principais termos descritivos de núcleos e de lascas, entre outros artefactos, que se reproduzem, respectivamente, nas Figuras 2 e 3, traduzidos para português segundo a proposta mencionada.

Figura 2

Fig. 2. Principais termos descritivos para núcleos (segundo Inizan et al., 1995, fig. 20; adaptado).

Figura 3

Fig. 3. Principais termos descritivos para lascas lato sensu (segundo Inizan et al., 1995, fig. 5; adaptada).

Assim, por “material de debitagem” entende-se todo o conjunto de lascas (lato sensu) resultantes do talhe de um bloco de matéria-prima, as quais são potenciais suportes de utensílios retocados. Porém, é usual classificar estes produtos em lascas (stricto sensu) e em lâminas/lamelas, dependendo da sua morfologia concreta. Deste modo:

  • Considera-se lasca um produto de debitagem com comprimento menor que o dobro da sua largura, independentemente das dimensões em causa (as lascas com comprimento inferior a 1 cm são classificadas como esquírolas e, portanto, incluídas no “material residual”);
  • Consideram-se lâminas ou lamelas produtos de debitagem com comprimento maior ou igual ao dobro da sua largura —por vezes denominadas globalmente sob a expressão “produtos alongados”— distinguindo-se, por convenção, as primeiras das últimas pela sua largura maior ou igual a 12 mm ou, alternativamente, através da busca de agrupamentos naturais no seio dos conjuntos líticos em estudo.

É importante também estabelecer-se a distinção das lascas de acordo com a presença de córtex, o que resulta na definição de lascas corticais (percentagem do anverso da peça coberto por córtex: ≥90%), lascas parcialmente corticais (10-90%) e lascas não corticais (≤10%). Note-se que, no caso das peças com anversos corticais, esta categoria poderá corresponder na realidade a material produzido no âmbito da conformação de núcleos, devendo por isso ser entendida enquanto “material de preparação”.

Uma definição de “núcleo” pode ser a seguinte: “bloco de matéria-prima de onde se retiraram lascas, lâminas ou lamelas tendo em vista a obtenção de suportes para utensílios” (Tixier et al., 1980, p. 93; original francês). Este grupo de artefactos deve ser dividido em vários subtipos morfológicos, os quais corresponderão em princípio a diferentes estratégias de talhe. Para o caso das indústrias paleolíticas e neolíticas, vejam-se, respectivamente, as propostas avançadas por Zilhão (1997) e Carvalho (1998). Como se observa nestas propostas, existe uma importante diferenciação entre núcleos prismáticos —os quais são muitas vezes associados à produção de lâminas e lamelas— e núcleos não prismáticos, ou seja, de outros tipos; neste sentido, entende-se por prismático todo o núcleo que manifeste a presença de uma (ou mais) plataforma intencionalmente seleccionada, utilizada de forma recorrente para a extracção de produtos segundo arestas-guia, dando origem à formação de negativos dispostos de forma paralela em pelo menos uma das faces do núcleo, mesmo que este não forme um poliedro regular.

Directamente relacionadas com os modos de exploração dos núcleos estão duas categorias de artefactos que se podem reunir sob as designações de “material de preparação” e “material de reavivamento”. Por facilidade de organização, e porque frequentemente perfazem efectivos muito reduzidos nos conjuntos líticos, estas categorias surgem agrupadas na matriz ilustrada na Figura 1. Não obstante, indicam-se aqui as definições dos três tipos de artefactos mais comuns:

  • Crista: “termo que se aplica à conformação —ou reconformação— de um núcleo tendo em vista a debitagem de lâminas (ou de lamelas). Trata-se de criar uma aresta, por levantamentos frequentemente bifaciais, limitados por duas séries de contra-bolbos. Esta aresta permitirá extrair, guiando-a, uma primeira lâmina: a lâmina de crista, que terá necessariamente uma secção triangular, sendo as duas faces do seu anverso a parte removida da crista” (Tixier et al., 1980, p. 82-83; original francês) (ver esquema diacrítico da Figura 4);
  • Tablette”: “lasca característica que corresponde ao reavivamento de um plano de percussão ou de pressão de um núcleo” (Ibid., 1980, p. 104; original francês);
  • Flanco” de núcleo: “lasca característica que corresponde ao reavivamento da superfície debitada de um núcleo prismático, conservando no anverso negativos de extracções paralelas segundo arestas-guia e parte da cornija do núcleo” (Carvalho, 1998, p. 22).

Figura 4

Fig. 4. Esquema de debitagem de lâminas a partir de núcleos de crista. 1.: núcleo conformado através de uma crista; 2a.: primeiro levantamento; 2b.: respectiva lâmina de crista; 3a.-4a.: segundo e terceiro levantamentos; 3b.-4b.: respectivas lâminas com traços de uma parte da preparação da crista; 5.: preparação, numa única face, de uma crista durante a debitagem do núcleo; 6a.: levantamento da referida crista; 6b.: respectiva crista (segundo Inizan et al., 1995, fig. 61; adaptada).

Como a própria designação implica, por “material residual” entende-se todo o conjunto de artefactos que resultam do próprio talhe —por acidente ou por não ter sido o objectivo do mesmo— ou do fabrico de utensílios retocados. No primeiro caso, estão peças como as esquírolas ou os fragmentos informes que não se consigam atribuir a qualquer categoria de objectos; no segundo, poderão estar, atendendo unicamente e a título de exemplo, aos casos constantes da Figura 1:

  • Bâtonnets”: resíduos resultantes do fendimento longitudinal acidental de núcleos bipolares durante a debitagem;
  • Resíduos de golpe de buril: resultantes do procedimento particular utilizado no retoque de buris;
  • Microburis: resíduos resultantes da fragmentação intencional de lamelas para a obtenção de geométricos (ver esquema diacrítico da Figura 5).

Por “utensílio retocado” considera-se, em primeira análise, qualquer lasca (lato sensu) apresentando negativos de levantamentos posteriores à sua extracção em que se possa deduzir não terem sido transformadas em utensílios as peças daí extraídas (estaríamos neste caso perante núcleos sobre lasca), ou qualquer bloco talhado em que se observe que o objectivo do talhe não era unicamente o de produzir lascas mas também o de conseguir gumes ou superfícies úteis. Ou seja, esta definição implica a noção de “retoque”, o qual se definirá do seguinte modo: “um retoque é um levantamento, ou uma série de levantamentos específicos, praticado com o objectivo de obter um utensílio. Retocar é, então, afeiçoar, transformar intencionalmente um suporte debitado ou não. Os retoques —ou o retoque— são os traços deixados por esta acção” (Tixier et al., 1980, p. 103; original francês). Numa segunda análise, podem-se admitir também como utensílios os artefactos em que se observe —por vezes a olho nu, mas de preferência com recurso a análises traceológicas— marcas particulares designáveis por “sinais de utilização”. Neste caso, as peças inserem-se na categoria dos “utensílios a posteriori”, tal como proposto por Bordes (1961) a propósito das pontas levallois.

Figura 5

Fig. 5. Técnica do microburil. Esquema de obtenção de um microburil (4a.) e de um ápice triédrico (4b.) por percussão ou pressão aplicada sobre o bordo de uma lâmina assente em bigorna (1., 2., 3.). Obtenção, através desta técnica, de uma ponta de dorso (ou de bordo abatido) e de um ápice triédrico distal (5.) ou proximal (6.), e de um trapézio, um segmento e um triângulo (7., 8., 9.). Esquema de obtenção de um triângulo e de um trapézio a partir da mesma lâmina (10.); de cima para baixo: microburil distal, triângulo, microburil duplo, trapézio, microburil proximal (segundo Inizan et al., 1995, fig. 33; adaptado).

Não cabe aqui apresentar listagens tipológicas, pela extensão de texto que isso implicaria e, sobretudo, porque a sua aplicação a realidades para as quais não foram construídas acarretaria sempre a necessidade de se proceder à sua adaptação. De facto, as duas únicas tipologias líticas existentes para realidades portuguesas e com carácter apriorista —isto é, que não se cingem apenas à estruturação interna de um único conjunto lítico em particular— resultam, quer da adaptação, quer da inspiração em propostas anteriores. Trata-se da adaptação da lista tipológica de Sonneville-Bordes e Perrot (1954-56) para o Paleolítico Superior, adaptação que foi levada a cabo por Zilhão (1997) essencialmente através da adição e definição de novos tipos, e da lista-tipo simplificada criada para o Neolítico antigo da Estremadura portuguesa (Carvalho, 1998), a qual foi entretanto objecto de alterações pontuais e de aplicação a outras realidades regionais.

No respeitante ainda aos utensílios retocados, é importante salientar a distinção fundamental entre utensilagem dita de “fundo comum” e “armaduras”, a qual é definida pelo G.E.E.M. nos seguintes termos:

“distinguimos a utensilagem «do fundo comum»: raspadeiras, lascas retocadas, furadores, peças com entalhes, com truncaturas, etc..., eventualmente microlítica, e as ‘armaduras’ microlíticas, geralmente realizadas a partir de uma lâmina ou lamela delgadas: lamelas de bordo abatido, pontas diversas, segmentos, triângulos, trapézios. Estas três últimas formas são agrupadas sob a expressão: micrólitos geométricos” (G.E.E.M., 1969, p. 356; original francês).

Com efeito, as armaduras são usualmente tidas como a componente com o mais evidente cunho cronológico e cultural das utensilagens retocadas, o que tem justificado a particular atenção de são objecto nos estudos líticos do Paleolítico e períodos posteriores.

4. Conclusão

As sugestões metodológicas e o enquadramento teórico apresentados neste texto devem ser entendidos como uma possibilidade, entre outras. As diferentes escolas existentes a este nível, formadas a partir de pressupostos e contextos epistemológicos distintos, a transformação permanente das mesmas, e as opções particulares dos diversos investigadores, que resultam tanto da sua formação específica como dos seus objectos de estudo, são factores impeditivos da criação de uma normalização de procedimentos semelhante à que se pode observar noutras áreas científicas. Assim, apenas dois aspectos parecem poder ser tidos como omnipresentes em qualquer estudo lítico:

  1. A importância de se procurar adequar as metodologias analíticas às questões concretas que se pretende resolver e à natureza específica do conjunto lítico em estudo; e
  2. A utilização correcta e inequívoca da terminologia descritiva de artefactos —seja de inspiração bordesiana (como a seguida no presente artigo), laplaciana, ou outra— e dos conceitos operativos que se adoptem.

Ainda no sentido dos limites com que deve ser entendido o presente texto, deve ter-se presente que este não é um manual —que, aliás, também não existe— que substitua ou dispense o necessário trabalho analítico de laboratório, sobre uma colecção concreta de materiais líticos e com o devido acompanhamento, para fornecer as aptidões e o treino suficientes para o reconhecimento, classificação e análise de artefactos líticos.

Para além dos manuais referidos nas páginas anteriores (Tixier et al., 1980; Inizan et al., 1995), os quais fornecem de uma forma muito completa e didáctica os rudimentos da análise lítica, para um ponto da situação da teoria, metodologia e aplicações desta disciplina no virar do milénio, podem ser consultados os dois artigos sucessivos que Odell publicou no Journal of Archaeological Research em 2000 e 2001. Nestes textos, o autor produz balanços muito bem conseguidos, ainda que numa perspectiva vincadamente anglo-saxónica, sobre várias temáticas concretas: aprovisionamento de matérias-primas líticas, talhe experimental, paleotecnologia, tipologia e classificação de utensilagens retocadas, análise funcional, e o que apelida de “processos comportamentais”, isto é, alguns dos domínios específicos da investigação pré-histórica para os quais a análise lítica tem vindo a aportar contribuições muito significativas. Entre esses domínios, o autor elege e explora sucintamente o estudo da organização da produção lítica, as questões relacionadas com o género em Pré-História, o estudo da emergência e desenvolvimento da complexidade social, e a abordagem aos aspectos simbólicos e rituais dessas sociedades que se materializam ou entrevêem na pedra lascada.

Exemplos concretos do recurso ao talhe da pedra com aqueles objectivos, levados a cabo sobre realidades pré-históricas do actual território português ou que se poderão constituir como linhas de investigação a desenvolver, serão apresentados noutro artigo, a publicar nas páginas desta mesma revista (Carvalho, em preparação).

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ZILHÃO, J. (1997) − O Paleolítico Superior da Estremadura Portuguesa. Lisboa: Colibri.

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