Nihil agere quod non prosit
[Phaedrus, Fabulae 3.17.13]
"Não se faça nada que não seja útil"
A ideia para o tema do caderno temático deste terceiro volume da revista Praxis Archaeologica - Arqueologia versus divulgação: as novas fronteiras do conhecimento arqueológico - surge da constatação de que esta é, cada vez mais, uma questão recorrente no discurso sobre a prática arqueológica.
É mais ou menos consensual que existe uma empatia genérica do público não especializado para com a arqueologia, sem dúvida devido à carga de mistério que comporta, associada ao fascínio da descoberta (muitas vezes entendida como sinónimo de aventura). Se esta empatia existe, também é frequente ouvir queixas sobre a linguagem hermética dos arqueólogos e sobre a sensação da disciplina ser um território de iniciados que pouco ou nada deixam transparecer para o exterior. E, sobre isto, ouvem-se cada vez mais as vozes dos arqueólogos reclamando a necessidade da divulgação a par da investigação, enaltecendo a importância do retorno social dos trabalhos arqueológicos.
Conscientes da relevância e da pertinência da questão, procurámos reunir neste volume contributos para a sua reflexão e discussão, sempre na tentativa de responder à mesma pergunta: que podemos nós, arqueólogos, fazer para melhorar a prática arqueológica e a tornar socialmente útil?
Chamamos novas a estas fronteiras do conhecimento arqueológico porque em Portugal elas começaram a definir-se num passado relativamente recente. Se a presença da arqueologia no nosso país é tão antiga quanto a afirmação da disciplina no contexto europeu, a necessidade da justificação social do trabalho dos arqueólogos surge sobretudo a partir do mediático caso da arte rupestre do Côa e da inclusão do património arqueológico nos processos de avaliação de impacte ambiental, bem como no licenciamento de operações urbanísticas em centros históricos e em monumentos classificados e respectivas áreas de protecção.
O extenso artigo que apresenta um modelo de gestão para o que é, até ao momento, o único parque arqueológico em Portugal (Francisco, neste volume), representa um importante manancial de informação para a reflexão sobre uma das mais singulares experiências da arqueologia nacional, que urge rentabilizar do ponto de vista social e cultural, face ao investimento (e desinvestimento) público a ela associada. A par desta proposta para uma realidade descoberta num passado recente, o modelo do parque temático é reclamado para a valorização de um dos conjuntos que há mais tempo é investigado no nosso país: o megalitismo de Évora (Calado e Rocha, neste volume). Esta “utopia alentejana” é defendida com recurso à apresentação de experiências internacionais, expondo propostas concretas para a mediação com públicos não especializados. No que diz respeito à mediação com o público, destacamos ainda o artigo sobre a utilização da ilustração como ferramenta de interpretação de sítios arqueológicos em contexto museal (Gonçalves e Castro, neste volume).
A apresentação de casos concretos de valorização e musealização de sítios e monumentos arqueológicos encontra neste volume um espaço privilegiado, salientando-se o projecto desenvolvido em torno do povoado fortificado do Cossourado (Silva e Silva, neste volume), bem como a abordagem panorâmica destas experiências em Portugal, incluída no artigo sobre a problemática da valorização dos sítios arqueológicos (Matos, neste volume). A discussão de problemáticas e modelos é transversal a todos os textos agora reunidos, embora os primeiros artigos possam representar o que chamaríamos o corpo teórico do volume, com a exposição de perspectivas baseadas em contextos profissionais diversos, como a universidade (Diniz, neste volume) ou as empresas (Valera, neste volume).
Fundamental para a reflexão teórica sobre este tema é o contributo que nos trazem os nossos colegas brasileiros, cuja colaboração com a revista Praxis Archaeologica nos apraz registar pelo segundo ano consecutivo. Centrada num contexto político, social e cultural muito distinto do que conhecemos no espaço europeu, o caso da arqueologia pública brasileira (Funari, Oliveira e Tamanini, neste volume) alarga o horizonte da discussão e pode constituir-se como ponto de partida para o desenvolvimento de melhores práticas baseadas na partilha de experiências.
Apresentam-se ainda neste volume alguns artigos que não incluímos à partida no caderno temático mas que, dada a abrangência do mesmo, acabam por também com ele estar relacionado. Com efeito, as reflexões apresentadas sobre o paradigma de gestão (Oosterbeek, neste volume) e a recente (re)organização institucional da arqueologia em Portugal na demanda da raíz do poder (Almeida, neste volume; Pereira, neste volume), acabam por ter a questão do retorno social da actividade como ponto central.
Os últimos dois artigos deste número representam uma das políticas da actual Direcção da APA: a fixação em suporte escrito de actividades desenvolvidas no âmbito da associação, ultrapassando deste modo a dimensão do grupo restrito que nelas participou. A representação da APA na 3ª Conferência Nacional de Avaliação de Impactes, CNAI’08 - não incluída nas respectivas actas - fica assim disponível (Almeida, neste volume), bem como a primeira parte de um texto que surge na sequência do workshop “Estudos Integrados de Indústrias Líticas”, organizado pela APA em colaboração com a Universidade do Algarve em 2005 (Carvalho, neste volume). Com a publicação deste texto (cuja segunda e última parte será publicada no próximo número) todos os interessados podem usufruir de um conjunto de orientações teóricas e sugestões metodológicas para o estudo de uma temática tradicionalmente afastada da investigação da pré-história recente em Portugal.
A moral da pequena fábula de Fedro que serve de epígrafe a este editorial serve também de mote ao conjunto de textos reunidos no terceiro volume da Praxis Archaeologica. Da reflexão teórica à discussão da prática, do caderno temático aos restantes artigos, a perspectiva editorial é exactamente a de nada publicar que não seja útil. Esperamos tê-lo conseguido ou, pelo menos, ter continuado a contribuir para o debate que consideramos essencial para o desenvolvimento sustentado da nossa profissão.
índice deste volume
- Capa
PDF - Índice
HTML | PDF - Editorial
HTML | PDF - A divulgação do Conhecimento em Arqueologia: reflexões em torno...
A. C. Valera
HTML | PDF - Arqueologia; Divulgação; Universidade: palavras-chave para um novo...
M. Diniz
HTML | PDF - Valorização de sítios arqueológicos
O. Matos
HTML | PDF - Parque Arqueológico do Vale do Côa: uma paisagem cultural Património...
J. P. A. Francisco
HTML | PDF - Parque do Megalitismo de Évora; uma utopia alentejana
M. Calado e L. Rocha
HTML | PDF - A valorização, rentabilização e difusão como culminar do processo de gestão...
M. F. Silva e C. A. M. G. Silva
HTML | PDF - Ilustração em Arqueologia: um apoio à Museologia
L. J. Gonçalves e R. Castro
HTML | PDF - Arqueologia Pública no Brasil e as novas fronteiras
P. P. A. Funari, N. V. Oliveira e E. Tamanini
HTML | PDF - Gestão da Arqueologia: mudar o paradigma
L. Oosterbeek
HTML | PDF - Proteger apesar do IGESPAR, IP.: a Arqueologia Portuguesa num instituto...
M. Almeida
HTML | PDF - Arqueologia: onde fica a raíz do poder?
J. Pereira
HTML | PDF - Avaliação de impactes e Património Cultural: que papel para o arqueólogo...
M. J. Almeida
HTML | PDF - Talhe da pedra na Pré-História Recente de Portugal: 1. Sugestões teóricas e...
A. F. Carvalho
HTML | PDF - Normas de Redacção
HTML | PDF - Volume completo
PDF
Recomendamos a utilização de navegadores compatíveis com as normas XHTML 1.0 e CSS e uma resolução mínima de monitor de 1024 por 768 pixels.