VOLUME 3 (2008)
No presente texto aborda-se a questão da divulgação do conhecimento científico produzido no âmbito disciplinar da Arqueologia. Face à complexidade do problema e da multiplicidade dos ângulos de abordagem, optou-se por organizar o texto em duas partes distintas, mas organicamente relacionadas. Na primeira foca-se, numa perspectiva de marcado pendor teórico, a fundamentação epistemológica, ideológica e política do imperativo da divulgação científica, assim como o seu carácter constitutivo nas questões relativas ao património. Na segunda parte debatem-se alguns problemas concretos relacionados com a divulgação desse conhecimento, com particular ênfase na vertente da actividade empresarial. A par de alguns exemplos com potencial, discutem-se os problemas da adequação de linguagens e conteúdos, da preparação comunicativa dos profissionais de arqueologia e as condicionantes impostas pelos contextos mediáticos e sociais que envolvem a actividade e a sua relação com o grande público.
Pretende-se neste texto reflectir sobre a posição da Arqueologia universitária, no panorama complexo da sociedade contemporânea, reconhecendo que alguns dos elementos centrais neste debate não são do domínio exclusivo da Arqueologia, mas remetem para a missão da Universidade enquanto instituição, e outros tópicos extravasam a Arqueologia universitária porque remetem para todos os lugares da praxis arqueológica. Neste cruzamento de perspectivas, que se torna particularmente agudo, face às pressões aparentemente (?) contraditórias da Pós-Modernidade e do Neo-Liberalismo, desenham-se alguns trajectos, que contemplando a divulgação como questão central nas agendas do futuro, permitam estabelecer, entre a Arqueologia e o mundo contemporâneo, um novo contrato social.
Este artigo aborda a problemática da valorização dos sítios arqueológicos, tendo em vista a sua pública usufruição. Analisa os vários conceitos envolvidos, bem como sistematiza as fases ou etapas necessárias à concepção e implantação de projectos de valorização dos sítios arqueológicos.
Assumimos o risco de propor desde uma linha de investigação inovadora, englobada na designada arqueologia pública, a gestão turística do património arqueológico, nomeadamente do território do parque arqueológico do vale do Côa, ou seja, o desenvolvimento de um sistema turístico integrado no espaço rural património mundial classificado pela UNESCO como possibilidade de criar futuro num território de excelência paisagística. Linha de investigação iniciada na década de noventa do século XX, assente num conceito de ”sociabilização do património arqueológico”, para a qual os parques arqueológicos são importantes espaços sociais em que os elementos da cultural material arqueológica formam apenas parte dessa paisagem. Propomos uma arqueologia patrimonial que pretende converter a arqueologia numa ciência aplicada, como tecnologia para a produção e gestão do património arqueológico. Para reivindicar que os parques arqueológicos se devem converter em espaços de educação e ócio mais para além das suas funções de conservação, investigação, gestão e divulgação, e contribuir para o desenvolvimento socio-económico das comunidades locais.
Discute-se a situação do megalitismo alentejano, em termos da respectiva interpretação, musealização e divulgação face aos diferentes tipos de públicos. Apontam-se e caracterizam-se sucintamente os programas de algumas experiências nacionais e de internacionais e, finalmente propõe-se explicitamente o interesse da criação de um Parque do Megalitismo de Évora.
Apresentam-se, sumariamente, os resultados obtidos através do Projecto de Musealização e Divulgação do Povoado Fortificado de Cossourado que beneficiou uma estação arqueológica de importância relevante no contexto da “Cultura Castreja” do Alto Minho. Com esta iniciativa, realizou-se uma vasta série de acções, nomeadamente: conservação e restauro das estruturas de habitação, serviços e defesa; reconstituição de uma unidade doméstica; beneficiação dos caminhos de acesso; sinalização e legendagem interna e externa; restauro dos materiais provenientes da escavação arqueológica; elaboração de material de divulgação. Nessa perspectiva refere-se, ainda, a criação do Núcleo de Arqueologia do Museu Regional de Paredes de Coura e uma experiência de “História ao Vivo” realizada no Povoado Fortificado de Cossourado, no ano lectivo de 1999/2000, por alunos da Escola E.B. 2,3/S de Paredes de Coura, no âmbito do projecto da Área-Escola, em que se procurou, desta forma, converter a estação arqueológica num pólo de dinamização pedagógica, turística e cultural, integrando-a de forma sustentada no meio em que se enquadra.
A ilustração de reconstituição de contextos e ambientes constitui um dos temas centrais da arqueologia, pelo apoio à própria arqueologia, à museologia, às publicações, mas sobretudo para a comunicação com os públicos. Esta necessidade de representação do passado, mítico ou histórico, criou mesmo géneros na pintura, sendo na actualidade uma arte que necessita do trabalho de equipa entre artistas, arqueólogos, botânicos, geólogos, entre outros especialistas. Ver um ambiente reconstituído, onde homens e mulheres de outras épocas tiveram o seu quotidiano, é sempre algo que todos gostamos...
O artigo trata da Arqueologia Pública, entendida como a prática da disciplina em interação com a sociedade. Apresentam-se estudos de caso, no contexto brasileiro, a começar pela Arqueologia dos assentamentos de fugitivos (quilombos). Em seguida, apresentam-se algumas considerações sobre o patrimônio pré-histórico, em particular em relação a concheiros (sambaquis). Um terceiro caso de interação entre a Arqueologia e o público refere-se aos restos de desaparecidos. Conclui-se com um apelo pela ação arqueológica inserida na práxis social.
Traça-se uma breve panorâmica da evolução institucional da arqueologia portuguesa nas últimas três décadas, propondo uma mudança de modelo conceptual e de estratégia de articulação com a sociedade. Como exemplo de instrumento que se inscreve nesse novo modelo, refere-se o programa HERITY.
Na última década, um acréscimo evidente do volume de intervenções de Arqueologia, nomeadamente de Arqueologia de salvamento, conferiu à actividade arqueológica uma exposição social antes inédita em Portugal. Contudo, este crescimento não resultou imediatamente num aumento concomitante da qualidade geral dos trabalhos de Arqueologia, nem da divulgação dos seus resultados. Ora, esta evolução no sentido de uma Arqueologia de baixos custos, com poucas preocupações científicas e praticamente nenhumas de divulgação, tem raízes profundas em opções de carácter político que estão bem presentes na última reestruturação da tutela estatal da Arqueologia e património: na nova estrutura orgânica, mais centralizada e de maior desenvolvimento hierárquico, (1) perdeu-se toda e qualquer representação directa no território e (2) reduziu-se significativamente o peso específico da qualificação técnica na decisão. Nestes termos, os riscos de surgimento de uma prática administrativa insuficientemente fundamentada em conceitos técnicos e teóricos actualizados e capazes de garantir a protecção do património histórico e arqueológico surgiam acrescidos. Os primeiros tempos do consulado do IGESPAR confirmam estes receios, revelando deficiências que fragilizam seriamente a imagem social e o futuro da Arqueologia em Portugal.
Após uma década de acções de minimização é fundamental que se tome consciência de que necessitamos de ponderar sobre o trabalho que tem sido desenvolvido, avaliando o seu valor científico e social. Estamos em rede e a acção de um sujeito influi na actuação dos outros, opera na esfera cultural, molda a paisagem e remexe a organização social. Opinamos que se faça uma apreciação entre arqueólogos com actividades semelhantes, entre entidades análogas; que se accione um consenso entre arqueólogos integrados em entidades diferentes; que se incremente um esclarecimento entre arqueólogos e outros indivíduos, tornando a sociedade mais informada, responsável e capaz de agir em benefício do conhecimento e preservação do património.
A associação do património cultural à política de ambiente determina a presença deste factor ambiental humano nos processos de AIA. Por razões de ordem processual, e pela aparente demissão de outros profissionais da área, o descritor património cultural é frequentemente confundido com a realização de trabalhos arqueológicos, sendo arqueólogos os profissionais que sobre ele se pronunciam nas diferentes fases do processo. A imagem possível dos trabalhos arqueológicos realizados em âmbito de AIA é marcada pela diversidade decorrente da deficiente normalização de procedimentos, quer ao nível da execução, quer da sua (dupla) avaliação. Analisam-se duas propostas de normalização, promovidas pelo ex-IPA e pela APA, salientando a importância que a normalização tem na afirmação de padrões de qualidade, credibilização de procedimentos e na compatibilização de metodologias que permitam a leitura integrada da ocupação humana do território ao longo do tempo. A participação de arqueólogos nos processos de AIA está consolidada em Portugal, mas importa garantir que o tratamento do extraordinário manancial de informação recuperado se faça por profissionais com formação adequada, no respeito dos mais elevados critérios de qualidade, ética e deontologia. Só assim se poderá cumprir o maior desafio para o arqueólogo e para o património arqueológico em âmbito de AIA: a utilidade social.
Perante a quase inexistência de bibliografia em língua portuguesa especializada no estudo do talhe da pedra, por um lado, e as lacunas que transparecem a este nível no estudo da Pré-História recente, por outro, o presente texto, de carácter introdutório, visa fornecer algumas indicações metodológicas e a definição de alguma terminologia e conceitos mais frequentes nesta disciplina.
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